quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Cinco Momentos (Antes eles do que nós)

No primeiro momento eu vislumbrei algo incomum entre as luzes do trânsito e a fumaça emitida pelas centenas de veículos do tráfego intenso de nossa cidade. Vislumbrei sombras aglomeradas, que remetiam a pessoas. O eclipse da multidão fora causado por outros tipos de luzes, que mais pareciam sirenes de ambulância. A diminuição da velocidade dos carros me dava certeza: algo ocorrera naquele lugar.

No segundo momento eu desacelerei, quase parei. Analisei a situação rapidamente, assim como todos os outros inúmeros curiosos: carros parados, de pessoas cujas curiosidades eram tão grandes que as obrigaram a estacionar suas conduções para verificarem o ocorrido. A fita amarela e preta, conhecida de filmes policiais, demarcava a cena, dando certo oxigênio para quem já não mais respirava.

No terceiro momento pude verificar marcas balísticas no para-brisa de um veículo prateado. Não vi marca ou modelo, nem do carro tampouco do motorista. Mas vi de relance seu corpo cravejado pelos projéteis que furaram a barreira de vidro. Seu corpo, totalmente inerte, dava a certeza do seu falecimento. Descanse em paz, antes você do que eu.

No quarto momento as buzinas dos outros veículos aceleravam o ritmo da orquestra do caos que dava o ar de sua graça naquela noite, recomendando que curiosos como eu acelerassem, pois os curiosos que vinham logo em seguida queriam também ver algo daquele espetáculo. O sangue atrai as pessoas, a morte atrai mais ainda - é o maior dos mistérios. Pensei na matéria que a equipe de reportagem filmaria em menos de cinco minutos, para aumentar o alcance daquele circo. Pensei brevemente na família do assassinado, na reação em todos os meios de imprensa, e como tudo isso remete a fogo de palha, na melhor analogia que posso fazer neste momento.

Continuei meu caminho e cumpri as tarefas que eu me determinara a fazer. Voltei aproximadamente duas horas depois, fazendo o circuito inverso, me possibilitando ver de mais perto o campo de análise dos momentos anteriores. Neste retorno, vivi o quinto momento, o momento do esquecimento: no local onde a tenda existia, não havia mais nada. E você, que talvez tenha passado pelo local, não notou que nada ocorreu. Quando você viu no dia seguinte algo no jornal local, com certeza pensou: Eu passei por ali ontem e não vi nada! – e talvez tenha complementado com minha frase anterior – Antes ele do que eu.

Mesmo assim, apesar do nada, tudo aconteceu. E em cinco breves momentos, uma vida foi embora, foi levada. Mais uma “vítima” da nossa própria guerra do dia a dia. Boa ou ruim, relevante ou irrelevante. Não saberei. Tão rapidamente quanto contar até cinco.

3 comentários:

Pedro Piluca disse...

4, 3, 2, 1... Quando pessoas deixam de ser pessoas. Viram informações abstratas na sociedade virtual. Irreal. Surreal.

Muito bom o texto! Welcome back MFCK!

CA Ribeiro Neto disse...

Belíssima crônica.
Importar-se com o outro é uma questão essencial e esquecida.

Mas também, é preciso estar constantemente fora da caixa - tornar o fora da caixa mais do que rotina - para não deixar nada virar só estatística. Difícil missão.

Marcos Paulo Souza Caetano disse...

Parece que às vezes deixamos de nos importar para ver se conseguimos sobreviver. Importar-se com toda a tragédia de nossa existência é um peso suportável?