quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Há vilões e heróis entre nós III – e coadjuvantes que se acham invisíveis.

por CA Ribeiro Neto - Twitter 


Um pedaço de mangueira de uns 70cm com as pontas coladas, formando um círculo; dois tocos de madeiras velhas dispostos perpendicularmente no centro do círculo de mangueira; e uma tampa de garrafa de refrigerante com um prego segurando-a às madeiras. Esse é o volante e o único componente físico de um carro híbrido – metade realidade, metade imaginação – do Evaldo, ou Valdim. A andar pelas ruas do Centro, só largava uma das mãos do volante para passar a marcha. A ultrapassagem de outro pedestre sempre acontecia pela esquerda. Ao aproximar-se da esquina, pouco antes de parar e olhar para os lados, começa aqueles estalos com língua: “cloc-cloc cloc-cloc”- corretamente ligou a sinaleira para dobrar à direita.

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Leco estava esperando a hora que a coragem batesse à porta para começar a faxina da quitinete, quando, pela janela que olha o cinza, entra uma visitante inesperada. Uma bichana das mais atrevidas, logo se via pela cor da vestimenta que chamamos de pele e pelos. Branca, preta e tigresa, ela queria ser de todas as cores e dona de tudo. Olhou e fuçou tudo como quem diz: “isso agora é meu. Esse eu deixo você usar. Esse só pode se antes pedir minha autorização”. Subiu na cama e cheirou tudo que estava abarrotado por lá, com o mesmo olhar experiente que os antigos latifundiários olhavam os dentes dos novos escravos, e então olhou para o Leco com cara de que o aprovou. Alguns carinhos, umas lambidas e pronto. Cansou. Pulou pela janela que olha o verde. Leco, apaixonado, quando ia pensar em saudade, lembrou da faxina. Ao pegar na vassoura, SURPRESA!, ela voltou. Leco foi adotado.

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Minha cultura vai ser mantida? Tenho obrigação cultural de ensinar o ofício de rendeira aos meus herdeiros, ou eles têm o direito de só gostar do que vem de fora? Cinco netos no mundo. Tantas mijadas no meu vestido. Todos, picotos, correndo pelados no quintal, tentando pegar e tentando fugir das galinhas. Agora estão todos com celular na mão. Tudo de cabeça baixa, olhando pra luz. A mais velha das netas, agora, está fazendo faculdade de estilismo. Não sei como é direito, mas só volta pra terra de vez em quando, cheia de amigas. Aí, de repente, sem avisar nem nada, veio sozinha, sentou ao meu lado e disse: “Vó, deixa eu te fazer umas perguntas?” – pergunto pra quê e ela me responde com essa: “Quero estudar a sua renda lá na minha faculdade, levar a sua renda pra lá, Vó. Quero levar sua renda comigo e registrar tudinho. Vó, me ensina a fazer renda?”

7 comentários:

Danilo Maia disse...

Cara... Que bonito!!

CA Ribeiro Neto disse...

Bonito 1, 2 e/ou 3?

Sandra Alencar disse...

Adorei! Muito delicado e cheio de verdade! Visualizei esse gato! Parabéns!

Paulo Henrique Passos disse...

Essa história do gato... muito bonita.

Leco Silva disse...

Sabes bem que tenho um afeto pra lá de grande pelo texto II, mas ói, me alcançou bem essa da renda, hein? Tradição pega meu ser com uma facilidade e tanto. Adorei, mano velho!

Leco Silva disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Hermes Veras disse...

Todos os três são bons, amigo. Mas cadê a unidade? heuaheuaeh