sábado, 7 de fevereiro de 2015

Da nossa opção por voar


Se você pudesse escolher uma habilidade especial, qual iria querer: voo ou teletransporte? Sem tirar mérito de quem escolhe o último, fico com o voar. Prefiro a vista do alto à praticidade da chegada instantânea. O meio do caminho também importa, sabe; não é questão de escolher o melhor trajeto, e sim a melhor visão, o vento na cara, menos barulho, sem semáforos e engarrafamentos.

Sem falar nas opções de voo: pode ser com asas nas costas, asas nos braços e sem asas; o bater das asas, o planar, o flutuar ou até aquele esquema de uns super-heróis de pulos tão grandes que mais parecem voo mesmo; pode ser impetuoso ou imperioso; por propulsão mecânica ou pura mágica; com um braço pra frente, ou mesmo os dois, ou os braços pra trás, ou pro lado, estilo avião.

Ou uma opção mais “pé no chão” – desculpe a contradição – que é o pairar figurado: que nada mais é que sentir-se nas alturas por algum motivo, por uma felicidade, por um ato de solidariedade, por perceber-se amando – e amado. Optar ser pássaro é uno, decisão intransferível, mas pode ser coletivo.

Voar com alguém é experiência agradabilíssima. Se só um voa, há a confiança, pois um acaba carregando o outro. Ser levado de colo pelo outro é confiar e admirar a virtude do companheiro. É cumplicidade, é querer estar perto, aconchegado. É optar por rir e chorar junto. Se os dois já escolheram voar, então há mágica. Que eu saiba, não há ave que voe só com uma das asas. Mas dois humanos voadores conseguem a singular habilidade de esvoaçar, cada um com uma asa, desde que as asas paradas estejam entrelaçadas.

Eu, que escolhi a arribação e o pouso já tem um tempo, tenho o silêncio para fazer pensar mais em cada instante. Voo até minha amada ao fechar dos olhos – vivo a piscar, incessante.

12 comentários:

Pedro Piluca disse...

Tinha escrito um lindo comentário. A internet o levou para sempre! Resta-me dizer: amei o texto.

Paulo Henrique Passos de Castro disse...

Um vem-vem encarnado num ser humano o Carlim. Agora eu te perguto: a leveza te fez cronista ou a crônica te fez leve (pra voar)?

Hermes Veras disse...

Tinha que enfiar super-heróis e raios laser no meio. Lembro-me dessa Crônica, lemos no Confronto com o Autor, né?

CA Ribeiro Neto disse...

Agora me deu curiosidade sobre o primeiro comentário...

CA Ribeiro Neto disse...

ACHO que o primeiro, pois também sei ser cronista dos pesados.

CA Ribeiro Neto disse...

Essa crônica é recém escrita. Mas devo ter comentado a minha divagação sobre o assunto, que esse sim vem de longe.

Hermes Veras disse...

Como assim? Então viajei pro futuro e vi essa crônica ser escrita. Tem trechos inteiros que me lembro!

Camila Travassos disse...

Que delicadeza!
:)

Pedro Piluca disse...

Escolho voar. É mais difícil no começo, verdade, mas, como quase todo princípio árduo, faz-nos melhores. Alçar voo para o mais alto é sempre das melhores opções, vemos melhor de longe, de cima. Quase todo ser humano sofre de hipermetropia. Podemos contemplar a paisagem, sentir o vento, parar no meio do caminho, que, se não importa mais que a chegada, determina onde chegaremos.

Se há tempestade, atravessamos a nuvem, sofrendo as turbulências, chegando, porém, acima do temporal, sem mais sofrê-lo, assistindo com compaixão os terrestres que sofrem sem saber o porquê.

De outro lado, tenho dó de quem se teletransporta. As vezes se acostuma tanto que se vê teletransportado do início de sua vida ao fim da mesma e, quando percebe, desespera-se: passou pela vida e não viveu. Ao contrário, quem voa, pode pousar calmamente em cada momento da vida e, de quebra, ainda aproveitar o interstício de cada parte.

Para quem voa, vida. Para quem teletransporta: aprenda a voar, com poesia, com Eufonia:

"Quem passou a vida em brancas nuvens
E em plácido repouso adormeceu,
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu." Francisco Octaviano

Pedro Piluca disse...

Tenho impressão de que o texto primeiro era melhor. Mas acho que ele se empolgou. Bateu asas...

CA Ribeiro Neto disse...

Que maravilha de comentário, Pedrão! Quase um texto-resposta!

Marcos Paulo Souza Caetano disse...

Rapaz, queria ver vocês tentando defender o teletransporte ao invés do voo. Que tal o desafio, Carlim? Abraços!