quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Um tipo inesquecível


por Carlos Vazconcelos
Coluna: Li, comento e sugiro




Em nossas vidinhas tão efêmeras, conhecemos muitas pessoas. De todas as marcas, feitios e naturezas. E há poucas coisas tão interessantes quanto conhecer pessoas. Há personalidades que passam por nossas vidas sem deixar rastro. Outras, preferíamos nunca haver conhecido. Porém, há aquelas que deixam sulcos profundos em nosso ser.

Lembro que as velhas e boas revistas Seleções do Reader’s Digest traziam uma interessante coluna intitulada Meu Tipo Inesquecível. Eram testemunhos de vida, retratos de homens e mulheres que não passaram despercebidos por este mundo, que registraram suas vidas na vida do outro, que se inscreveram para sempre no livro da memória de alguém.

Eu também conheci um tipo inesquecível. Ele poderia tranquilamente figurar naquela seção da revista americana. Foi em 1992. Eu iniciava o curso de Letras, na Universidade Estadual do Ceará, quando tomei conhecimento da existência de um grupo de escritores chamado Ceia Literária. Era tudo que eu queria. Muito jovem, e vindo do interior, andava à procura do meu nicho, de um reduto de pessoas com quem pudesse compartilhar minhas afinidades literárias. O convite chegou em sala de aula, através do professor Valdemir Mourão, fundador do grupo, à época titular da cadeira de Linguística.

Passei a frequentar as reuniões da Ceia Literária com assiduidade. Identifiquei-me de pronto com todos os membros do grupo, pessoas inteligentes, sensíveis e solidárias, aptas a meter a pena na poesia do outro sem a intenção da mera crítica. Mas, particularmente, um dos membros daquele sodalício muito me chamou a atenção, pela originalidade, espirituosidade e carisma. Fernando Câncio de Araújo, o velho mais jovial que conheci. Ainda hoje, do auge dos seus oitenta e quatro anos, se o assunto é idade, responde com simplicidade: O que importa meus cabelos brancos, se minha alma ainda faz pipi na cama? Imediatamente lembro outro velhinho querido, Quintana:

Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai:
Eu quero meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai...
Que envelheceu um dia, de repente!

Antonio Carlos Villaça, no seu Os Saltimbancos da Porciúncula, descreve Quintana como um velhote buliçoso, que não tinha pose, nenhuma afetação. Era todo leveza, espontaneidade, fluidez, comunicabilidade modesta. Fernando Câncio também é assim. Certa vez, saíamos de uma reunião da Ceia Literária, num edifício da rua Liberato Barroso. O elevador, lotado, o Fernando, gordo. Todos esquivos para não pisar um pé alheio e empenhados em manter a devida distância do patrimônio do outro. O poeta observou que alguém entrara por último, quase espremido pela porta. Lá embaixo, quando a porta se abriu e acabou-se o sufoco, Fernando não se conteve e desferiu para riso geral: O elevador é um dos poucos lugares onde se faz valer aquela lei de Deus: Os últimos serão os primeiros.

Cursou as “primeiras e únicas letras” (como faz questão de esclarecer), no Grupo Escolar da Fênix Caixeral. Na verdade, cursou até o 4° ano primário, mas considera-se autodidata. Aprendeu a ler e nunca mais quis se separar dos livros. Leu grandes clássicos cearenses, brasileiros e estrangeiros. Escreveu inúmeros livros, alguns com títulos intencionalmente esdrúxulos e quilométricos (que nada têm a ver com o conteúdo), apenas para roubar a atenção: Os Sapos do Castelo de Montserrat ou As Aventuras de um Lagostim Daltônico. Foi durante anos o gerente do Cine Art. Sucedeu-se por dezoito anos no cargo de presidente da UBT (União Brasileira de Trovadores) e se dependesse dos sócios permaneceria por mais dezoito. De todos os gêneros, o que mais lhe dá satisfação é a Trova, sendo ele um dos melhores destas terras, na maravilhosa arte dos quatro versos. (Saudades, marcas doridas/de um momento que passou/bandeirinhas coloridas/que o tempo nunca rasgou ou Era um poeta de mão cheia/ Hippie, cabelos revoltos.../Só poetava na cadeia/Detestava versos soltos).

Fernando Câncio é também um exímio recitador. Uma vez no palco, contagia a plateia com o carisma e a desenvoltura de um mestre. Certo dia, comprovando a tese de que a criatura pode tornar-se independente do criador, criou Hortência, a amiguinha de infância transformada na mulher sonhada... Boquinha de forno...! Forno! Jacarandá! E Hortência virava lágrimas... de uma saudade perdida? de uma lembrança imaginada? É que o universo paralelo do artista é mais vasto do que a própria realidade.

Confessou-me um dia que nunca mais recitaria Hortência. A personagem havia crescido dentro dele, estava se exteriorizando, tomando conta de seu coração, fazendo-o chorar em público. Definitivamente, Hortência passou a existir. Não mais nas páginas amareladas do livro, mas na lucidez de sua memória, como ser concreto, como parte de seu passado, mulher de carne e osso.

Fernando Câncio é uma dessas raras pessoas a quem temos orgulho de conhecer. Sua grandeza está na simplicidade. Por isso, para falar sobre ele temos que usar palavras simples, despojadas de vaidade, mas carregadas de valor.

Algumas vezes fui visitá-lo, na rua Floriano Peixoto, 1964. Usufruí momentos de gratificante conversa. Dona Zilnah, sua falecida esposa, de saudosa memória, também sempre muito solícita. Uma tarde, saí rumo àquela rua. Não para visitar o Fernando, que o horário não era propício, mas apenas para levar-lhe uns doces. A casa estava silenciosa e tristonha. Bati. A secretária veio atender pelo muro do jardim. Contou-me que dona Zilnah já não estava mais entre nós. Senti o golpe. Desagradável surpresa. Eu estava a caminho de um sebo, localizado na Aldeota. Dentro do carro, larguei-me a refletir sobre o mistério doloroso da morte e os sentimentos a que ela nos remete. Mais tarde, garimpando livros, saltou-me aos olhos o Meu Nome é Saudade, de Fernando Câncio, que é dedicado justamente à Dona Zilnah. Quanta coincidência! Não poderia deixar de adquirir o volume, este mesmo que está repousando aqui ao meu lado, com autógrafo do autor. Na parede, um óleo sobre tela, feito especialmente para a capa da coletânea Ceia Maior, em comemoração aos dezoito anos do grupo Ceia Literária (1999), do qual somos membros.

Fernando Câncio mora na minha estante, na minha parede e principalmente na minha memória. E não paga aluguel.

4 comentários:

Pedro Piluca disse...

"É que o universo paralelo do artista é mais vasto do que a própria realidade."

(...) "temos que usar palavras simples, despojadas de vaidade, mas carregadas de valor."

Não seria esta memória aquilo que o poeta chama coração?

Me apaixonei por Câncio!

CA Ribeiro Neto disse...

Incrível, né?

Senti a angústia da morte da esposa...

Quando um dia eu for importante em algo, quero minha biografia escrita pelo Carlos Vaz!!!!

Hermes Veras disse...

Texto muito sensível, incrivelmente humano. Obrigado, Vazconcelos, por compartilhar conosco.

Pedro Piluca disse...

Sem falar do óbvio nunca escrito: há poucas coisas tão interessantes quanto conhecer pessoas!