sábado, 25 de julho de 2015

O Momento Literário hj - Raymundo Netto

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Raymundo Netto é editor da editora Demócrito Rocha, escritor, e o diplomata da literatura cearense - não há lançamento de livro nessa cidade que ele não apareça!

1. Quais os autores que mais contribuíram para sua formação literária?
Não estaria mentindo se dissesse que sempre me foram mais caros os clássicos brasileiros e/ou portugueses (durante muito tempo, com exceções, devido à resistência a autores de língua estrangeira). Tive uma infância coberta de leituras, principalmente de quadrinhos (Recruta Zero, Pinduca, Família Buscapé, Popeye, Bolinha, turma da Mônica, Batman, Zagor, Ken Parker etc.) e, até o início da adolescência, de Monteiro Lobato. Depois dos quinze, por conta própria, ingressei na leitura de Machado, José de Alencar, Lima Barreto, Camilo Castelo Branco, Rachel de Queiroz, Fernando Sabino, Stanislaw Ponte Preta, Drummond, Nelson Rodrigues, enquanto por meio das leituras da escola conhecia Maria José Dupré, Ofélia e Narbal Fontes, Homero Homem, Lúcia Machado de Almeida, Orígenes Lessa, a maioria autores publicados pela renomada série Vaga-Lume, da Ática, referência na época. Os autores cearenses contemporâneos só viria a conhecer muitos anos depois, já depois de formado, sendo que, em primeiro lugar, os textos de memorialistas.

2. Das suas obras, qual a que prefere? E desta obra, qual conto, poema, trecho ou capítulo prefere?
Sou quase obrigado a dizer que a obra de minha preferência é Um conto no passado: cadeiras na calçada, isto, pois sem ela eu não teria escrito as demais, além de ter sido ela a obra que me apresentou ao cenário literário, também sendo meu primeiro prêmio e a mais distribuída (esgotados 2.500 exemplares).

3. Como você vê o cenário literário no Brasil? Há novas escolas? Quais escritores representam a atual literatura?
A cena literária está cada vez mais profissionalizada e, devido à competitividade e/ou dificuldade do mercado, mais midiática, sendo muitas vezes traduzida pelo “barulho” produzido e pelo número de exemplares vendidos, como se isso fosse referência de qualidade. Creio que os jovens e as pessoas em geral estão lendo mais, mesmo que em outros suportes, mas não posso afirmar que curto o tipo de leitura que mais atrai a esse público jovem, assim como não me iludo com aqueles que têm mais espaço na mídia, nem sempre tão bons quanto gritam as orelhas deles (livros) nas nossas. Há uma grande penetração dos best-sellers americanos, que sabem e têm poder de venda maior do que o de nossas editoras, mesmo as maiores. A literatura brasileira tem um ritmo diferente da que vende, assim como esse leitor/consumidor tem uma percepção diferente, se ligando mais à velocidade, à superficialidade ou a um estilo da moda, ou quando há busca por uma suposta profundidade, mergulha na água rasa dos autores de autoajuda, religiosos ou fantástico-lovers de araque que circulam sempre em torno do mesmo vazio essencial. Não vejo uma nova escola surgindo nos dias de hoje. Tudo muito mix e híbrido. Às vezes, a tentativa de fazer algo diferente, um experimentalismo de chute, por vezes caindo em desgraça. A literatura é um mosaico de singularidades, mesmo quando há um encontro de clichês ou uma criminosa tentativa de copiar o incopiável. A grande preocupação, no entanto, é saber qual a participação e o real papel da literatura nos dias atuais e vindouros. O que ela tem a dizer para esse mundo de imagens e superficialidades, no qual se admite não se ter tempo para a leitura mais extensa, ou melhor, que não há tempo para fruição, assim como não há tempo para o ócio da criação, enquanto se tem tempo demais para manutenção de perfis no facebook, jogos eletrônicos ou mesas de bar ou points de encontros. A literatura deve refletir mais sobre isso? Deve tomar o rumo disso? Pretende sobreviver nesse mundo a qualquer custo?

4. Há literaturas regionais ou uma única literatura brasileira?
Essa discussão é sempre muito chata, partindo inclusive do conceito do que é “ser regional”, visto por uns críticos de rodapé como algo quase profano. Ah, se fosse. É óbvio que existem literaturas regionais, com identidade e características próprias, inerentes à construção de todo um imaginário e/ou ambiência de um determinado povo. Dizer, por exemplo, que não existe uma literatura cearense, é o mesmo que afirmar que não existe uma brasileira, ou que tudo é universal. Creio que só existe um todo porque existem as partes que o compõem. Assim, toda literatura cearense é brasileira, mas nem tudo que chamamos de brasileira pode ser cearense. Não é lógico? Ou padeceremos sempre do mal da crise de identidade: todo mundo é urbano, desde que carioca ou paulista (Machado de Assis nunca botou o pé fora do Rio e ninguém o condena de regionalista). Da mesma forma, levando em conta a fruição e a qualidade textual, também nos é lógico que essa questão não é relevante, a não ser enquanto estudo, análise, pesquisa, registro.

5. A internet, especialmente no Brasil, é um fator bom ou mau para a arte literária?

A internet, a boa e regular utilização de suas ferramentas e redes sociais, tem contribuído sobremaneira na ampliação da divulgação do trabalho daqueles que não encontram espaços nas boas editoras do país (a maioria, diga-se de passagem), além de aproximar esses autores, por meio de seus blogs ou páginas pessoais, dos “olheiros” e leitores diversos, ou mesmo possibilitando esse autor acompanhar as revistas e jornais virtuais de outros estados ou países, que também estão desaparecendo dos papéis. Há um excesso, é claro, devido à facilidade. Muito lixo cibernético-literário, informação em demasia, escondendo no meio de constelações estrelas de brilho especial, quase imperceptíveis num céu tão concorrido. No mais, a arte, literária ou não, sempre teve dificuldades adequadas ao seu tempo. Quem produz arte, ou tenta fazê-lo, deve ter em mente, em primeiro lugar e apesar de tudo, a certeza de que quer continuar produzindo, apesar de, caso contrário, é melhor parar tudo, ler um bom livro, ir ao cinema e curtir tudo de bom que a vida proporciona e que o artista, muitas vezes, esquece que existe, pois trabalha o tempotodotempo.

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Um comentário:

Sandra Alencar disse...

Adorei o ponto de vista! Muito interessante.