sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Duas semanas em dois segundos - Exercício de Criação I

por CA Ribeiro Neto - Twitter 


UMA CASA VELHA E ABANDONADA, NA ESQUINA DE UM BAIRRO TIPICAMENTE RESIDENCIAL DE FORTALEZA. UM CASAL DE MENDIGOS UTILIZA O LAR COMO MORADIA EMPRESTADA. DETERMINADA MANHÃ, PASSO LIGEIRAMENTE PELO LOCAL E VEJO A SENHORA DO CASAL AOS BERROS DENTRO DA CASA. O SEU COMPANHEIRO ESTÁ SENTADO NA ESCADINHA DA ENTRADA DA CASA, COM METADE DA BARBA FEITA E A OUTRA METADE REPLETA DE CREME DE BARBEAR E DUAS MULHERES BEM VESTIDAS SE RETIRANDO DO LOCAL, INDO EM DIREÇÃO AO SEU CARRO.

Quantas possibilidades de histórias há em uma cena vista por no máximo dois segundos?

Rosa enlouqueceu após perder sua última gravidez. Deixou o marido, deixou de trabalhar, foi gastando tudo que tinha em bebidas e se envolvendo com os bebuns que haviam nos locais onde ela deixava seu dinheiro. Entre amores de uma noite e falta de memória do que fez na noite anterior, conheceu Reginaldo. Acharam por bem se manterem um tempo juntos. Mas aí veio o período chuvoso. As coberturas das fachadas de fábricas já não rolavam mais pra dormitório. Lembraram-se de uma casarão, há muito tempo abandonado, não vai ninguém, sem serventia, só ocupando uma esquina do bairro. Tomaram para eles já tem duas semanas, aí apareceu quem se dissesse dono. Duas moças foram até o local, falaram com Rosa, que entrou casa adentro, gritando e assanhando os cabelos. Reginaldo sai do banheiro com a barba cheia de espuma e um barbeador enferrujado cheio de pelo na sua mão. Elas entregam o ofício a ele e falam do prazo para a retirada pacífica antes da desocupação. Ele fala algo com o seu santo padroeiro, um tal de São Nunca.

Reginaldo é um visionário. Invadiu uma casa que ninguém mais usava mesmo e transformou o que poderia ser um lar em seu meio de vida. É um empreendedor. Chamou Rosa, sua companheira de ideias e de cama, e contou seu plano. A casa tinha uma posição estratégica, perto da avenida litorânea, tradicional vitrine das profissionais do prazer, mas bem distante da parte luxuosa que sempre atraiu turistas europeus. Quem procura profissional por pouco, também não procura motel 5 estrelas. Começou os trabalhos com a poderosa propaganda boca a boca e com a promessa de descontos para a fidelização da profissional que vier realizar seus ofícios no novo ambiente. Duas semanas depois já havia meninas morando no local e atendendo diurnamente. Até que chegou por lá duas mulheres bem arrumadas, da Prefeitura, do serviço social e sei lá o que, dizendo que eles não podiam ficar ali, que tinha um canto para cada um delas. Reginaldo, que estava fazendo a barba e que não parou por causa das visitas, disse que se quisessem abrir puteiro de grã-fino, ali não era lugar. Que fossem procurar outro terreno e que tratassem de emagrecer, se quisessem competir com as meninas dele e com o Motel do Bom.

Rosa, filha de família rica, casou-se com um empresário que, depois de 30 anos, faleceu e deixou-a viúva e louca. Mandou as duas filhas para a Europa, e foi torrando tudo que tinha comprando decoração para casa e plantas exóticas para o jardim. Quando viu que o saldo estava diminuindo, foi vendendo tudo a preço de banana, para que não faltasse nada para as filhas no exterior. Para as filhas não perceberem as mudanças, ela inventava de visitá-las nas férias delas, ao invés de recebê-las no Brasil. A loucura se completou quando ela conheceu melhor o jardineiro Reginaldo e se achamegou. Com ele, ela aprendeu a gostar de cachaças centenárias e como podem ser movimentadas festas a dois. Quando o dinheiro já estava que era só a rapa do tacho, ela se lembrou dum casarão antigo, de seus falecidos pais e que ela achava que ainda dava para morar. Depois de duas semanas, enfim, as filhas notaram a falta do baú no final do arco-íris londrino, voltaram ao Brasil e encontraram a mãe passando necessidades na antiga casa da família. Logo na chegada, encontraram o Reginaldo sentado no batente, tentando fazer a barba sem usar espelho. Entraram de supetão, encontraram a mãe lavando louça sem sabão e voltaram para brigar com o homem, ele calado estava e calado ficou. Quando coçou o saco por cima da bermuda elas desistiram, correram para o carro e foram embora.

3 comentários:

Paulo Henrique Passos disse...

Ah esses dois segundos... Dão dois milênios de histórias.
A tua visão de cronista não desafina, né, Carlim?
Fico imaginando se essas pessoas soubessem que - até sem querer, por por um ímpeto mesmo de observador criativo - estão sendo observados. Às vezes parecem até que atuam... só para a gente assistir rsrs

Adorei a confusão que o homem faz na segunda história!

Hermes Veras disse...

Big BROTHER Carlim.

Não sou um robô.

CA Ribeiro Neto disse...

É um exercício que todos deveriam fazer, é massa demais!