segunda-feira, 7 de setembro de 2015

O bote do calango

por CA Ribeiro Neto - Twitter 


Qual foi a última vez que tomei banho de mar?” era a pergunta que Durval se faz regularmente. Distante da família e da terra natal, ele aguarda o próximo feriado que possa não estudar nem fazer faxina no seu quitinete e que seja no começo do mês, para ainda ter um pouco do pouco salário. A mãe lhe liga com frequência, os irmãos lhe mandam novidades pelas redes sociais, o pai apenas espera a sua visita. Antes de vir para a capital, desejava a liberdade, queria ter um canto só para si. Hoje pensa sobre isso e se acha tolo, a solidão é um calango, que se finge de morto, imóvel, até que sua presa – a memória – se aproxime. Mas se ele está ali, na cidade grande, sozinho, é para estudar, pensar no futuro, dar um futuro melhor para seus pais. É preciso ter fé em algo, em Deus, talvez, ou em si mesmo. Fé que algo diferente do provável possa acontecer. Já está perto do feriado de setembro e não há qualquer perspectiva de ver os seus, de ver o mar. A desculpa de estudar já não o convence, afinal, ele devia estar estudando agora, mas, ao invés disso, está deitado na cama semidesnudo. O telefone toca, é seu pai, com voz inusitadamente meio chorosa, dizendo que já não aguentava mais de saudade, que ele teve um sonho ruim e que quer seu filho por perto, disse que já pediu os dados bancários à sua mãe e já depositou um dinheiro na conta de Durval, para que ele venha passar a independência em casa, com os seus.

3 comentários:

Danilo Maia disse...

Carlinhos, não lembro de ter te dado autorização pra contar a minha história no blog!! u_u

CA Ribeiro Neto disse...

Hehehehehehe!
Se a carapuça serviu!

Hermes Veras disse...

Deve servir para muito de nós... Calangos. fiquei com raiva também do roubo de minha trajetória. Seria a minha, exceto pelo telefonema do pai e do dinheiro.