segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O radial crescente vermelho

por CA Ribeiro Neto - Twitter 




O cheiro de terra e grama molhada preenche o ar, como se a vida fosse um velho a pedir calma a todos. Se tivéssemos tempo de parar para apreciar, poderíamos perceber que nesse vasto gramado há milhares de tons de verde, variando devido à idade de cada folha, ao que há de nutriente em cada centímetro quadrado de solo e ao quanto de sol, sombra e orvalho recebe a cada vinte e quatro horas. Talvez haja uma estrada servindo de suspiro óptico ao verdeal, ligando pequenos lugarejos, mas também não podemos bater o martelo com qualquer certeza. Mas não há tempo para tanta reflexão, então, o que se vê é um grande mar verde e sólido, fazendo divisa com o céu. Se houver montanhas ao longe, decerto estão tão distantes que se tornaram azuis também e se confundiram com a gradação de azul do céu. Este, malhado de nuvens, se tivesse vida, estaria procurando a melhor posição para visualizar o fato-pintura. E as nuvens, com formações densas, colaboram com a dramaticidade que porventura o momento peça. A jovem, prestes a cair, arregala os olhos, achando que entender o que acontece pode adiantar de algo. O tempo que é seu inimigo agora. Um vermelho vivo espalha-se na lateral de seu abdômen, pouco acima da bacia. Com o forte ardor no local, rapidamente ela olha para, então, sentir a dor. Mais rapidamente ela tira o olhar do radial crescente vermelho e busca o horizonte. Procura o atirador furtivo ou alguém que lhe ajude? Insanamente os dois em fração de segundos. Contudo, o autor do disparo ou a possível ajuda não seria também a sua motivação para estar ali? O objeto de sua busca seria quem lhe fez mal, quem lhe quer bem ou ela é simplesmente vítima da hora inapropriada? O céu, calado, observa; o vento, como se quisesse levar algo de recordação – a sombrinha ou um fio de cabelo, que seja – certamente passará o que viu adiante.



(Texto inspirado na obra da artista plástica Jéssica de Sousa, irmã do escritor)

4 comentários:

Sandra Alencar disse...

Muito sensível, bonito e delicado! Andei de mãos dadas com ela!

CA Ribeiro Neto disse...

Sobre o processo criativo, vi esse quadro no quarto da minha irmã e em fração de segundos imaginei tudo isso. Depois foi mera burocracia de passar tudo pro papel!

Hermes Veras disse...

Escrever também é ser visitado por entidades misteriosas, meu caro C. A Ribeiro.

Paulo Henrique Passos disse...

Muito lindo o quadro.
Quem escreve é escritor 24h horas por dia, mesmo quando não está escrevendo.
E fazer conversas entre linguagens diferentes é sempre muito bom.