segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Anunciação

por Danilo Maia 
Coluna: Faça [P]arte de tudo



Saiu de casa. Fechou a porta. Quando colocou o pé na calçada e percebeu que pisara em uma enorme minhoca. E apesar daquela criatura ter a metade do seu corpo destruída, a outra metade – irrequieta – parecia exigir o direito de viver!
Ele controlou o asco e continuou o seu caminho. E até já havia esquecido o episódio com o longilíneo ser, quando se deparou com uma porção de vermes, também na calçada, se estrebuchando. Achou estranho, pois não havia nenhuma matéria putrefata no local que justificasse aquela cena.
Sentiu um calafrio na espinha. Porém, agitou a cabeça na tentativa de esquecer aquilo.
Andava rápido e tenso.
À frente, um enxame de moscas fazia um tipo de bloqueio muito sinistro no seu caminho. Moscas pequenas, grandes, escuras, verdes... De todos os tipos. E um zumbido exasperante. Espanou a mão no ar para espantar os insetos. E rompeu a barreira, correndo, com a boca e os olhos fechados.
Sentiu-se perturbado por todos esses eventos.
Com um passo nervoso, sentindo ânsia de vômito, olhava para trás a todo instante, tendo a sensação de estar sendo seguido, andava cada vez mais rápido. Tropeçou nos próprios pés e caiu. Deu com a cara no solo.
Ainda com medo, porém, sentindo mais raiva naquele momento devido a própria distração, praguejou. No entanto, sua atenção foi chamada para o alto ao ouvir o grasnar de um urubu que estava em cima de um muro e olhava diretamente para ele. Um horror profundo tomou conta do seu ser. Suas mãos encresparam agarrando o chão, numa tentativa débil de não ser arrancado dali pela lúgubre criatura.
Um grito mudo saiu de sua boca e, em seu coração, pedia a todas as divindades que aquilo parasse.
Saindo do transe, levantou-se de pronto e correu o mais rápido que pôde. Atravessou a rua sem olhar para os lados e um carro acertou-lhe em cheio.
Seu corpo foi lançado para a calçada oposta. Pousou no chão quente já sem vida.
O seu rosto era a própria imagem do terror congelada para sempre nele. Pessoas foram se aproximando para ver de perto a infelicidade que caíra sobre aquele pobre homem. Não para se compadecer de sua morte, mas mais para se sentirem aliviadas por não serem elas a escolhida para fazer a inevitável viagem.
Entre os curiosos, uma figura anormalmente alta e magra aproximou-se mais e, com seus longos dedos, tocou levemente sua face, ajudou a fechar-lhe os olhos, segurou a mão daquele desgraçado e a apertou com força. Aproximou a boca quase descarnada do ouvido dele e sussurrou:


- Cheguei.

2 comentários:

CA Ribeiro Neto disse...

Tu está se garantindo muito nessa linha realismo fantástico!

Danilo Maia disse...

Eita, macho!! Tu fala isso e eu fico me sentindo aqui!! haha
Valeu, meu fi!! Por tudo!! Por acreditar, por convidar, pela oportunidade!! Tudo!! ;-)