domingo, 7 de agosto de 2016

Mistério em Jaci

por CA Ribeiro Neto - Twitter




[ | ]



Como tantas cidades cearenses, Jaci teve a infeliz ideia de crescer perto da rodovia, ao invés da praia, deixando para os lugarejos da zona rural os mistérios e a beleza que acontecem ao nível do mar.

Mas de vez em quando, tais mistérios sobem um pouco a altitude.

Seu Bernardo tem um restaurante vizinho ao posto de gasolina que é a porta de entrada da cidade. Lá pousa os caminhoneiros que querem tirar um cochilo, esfriar o corpo com uma cerveja e esquentar a alma com uma paixão.

Já tarde da noite de uma sexta-feira, chega uma mulher de traços indígenas e vestido branco. Muito bela, tinha cabelos e olhos parecidos: escuros e escorridos; a pele morena, de um tom cobreado que só os indígenas conseguem manter; um corpo recortado, que faz o vestido sério e quadrado se tornar também sensual.

Ela entra, se senta e, com a aproximação de Seu Bernardo, pede uma água. Com o pedido dela, ele lembra a famosa pergunta que ele faz a todo cliente que lhe pede água: “Quer mineral ou da torneira?” Mas julga a segunda opção um tanto imprópria para a moça.

Enquanto ela assiste a estrada deserta, alguns caminhoneiros aproximam-se, interessados em observá-la. Olham-na com pupilas famintas de desejo, mas não recebem dela a menor receptividade ou convite. Eles, temendo uma recusa em público, desistem de qualquer abordagem.

Quando a plateia desiste do marasmo e se retira, resta apenas um bêbado que não sabe ainda se está dormindo ou acordado – condição fundamental para ser testemunha de algo inusitado. Ela se levanta; anda suave e sensualmente em direção ao estupefato Seu Bernardo; encosta suas mãos no ombro direito deste; aproxima os lábios do ouvido dele; e diz:

- Vamos. Vim te buscar.

Seu Bernardo cai no chão com uma parada cardíaca fulminante. Sua alma, já externo ao seu corpo, se vê em convulsão; com uma sensação de compreensão total; agora sabe que a alma pode ver o seu corpo ainda alguns segundos vivo; agora tem certeza de que existe alma; e agora sabe porque não sabemos a hora de nossa morte: ela age no improviso.

Um comentário:

Danilo Maia disse...

Massa demais!! Adorei!!