quinta-feira, 19 de março de 2015

Banco de praça

por Mario Oliveira
Coluna: (des)construindo


Há quantos anos eu permaneço sentado neste banco de praça? – me questiono, após tomar mais um gole de vinho barato que remete a sangria. Olho para o lado e vejo um casal namorando. Beijos intensos, corpos colados. Se estivessem mais próximos de mim, neste banco, certamente teriam me tragado para a sua intimidade, tal volúpia magnética do momento. Desafio a física e enfrento o buraco negro:
- Vocês tem fogo? – O casal retira então os restos de saliva dos cantos do seu par de lábios.

- Sim, toma. – O jovem, de tatuagem no rosto, alargador na orelha e cabelo colorido, parece irritado.

- E cigarro, você tem algum? Quem tem fogo tem cigarro... – e rio sarcasticamente, num tom de leve deboche com cara de “te peguei, malandro”.  A menina que o acompanhava, com sua farda de colégio elitista, faz um sinal negativo com a cabeça. Tal qual toda ninfeta, chegava ela quase ao auge do seu físico. Preconceituoso como sou, penso logo que junto a este ápice vem o ponto mais baixo da maturidade.

Começo a fumar. Encaro a fumaça e, em meu transe de leve torpor etílico, vejo na fumaça a imagem do casal entrelaçado. Não demora muito para que eu veja outra garota na fumaça, de características iguais. Memória de outrora, mostrava que o rapaz era um especialista no nicho. Lembro-me bem dele de outros carnavais, mas na mesma praça.

Já que começo a passear por este passado, decido passar a mente por outros tipos com o auxílio da fumaça e de outro gole de vinho. O machão que chega com seu som automotivo de volume elevado, compensatório do diminuto potencial de outras das suas características. Os revolucionários estudantis que fedem a tudo, menos a revolução. Os inocentes que não são tão inocentes, mas que ao passar por seu estágio nesta praça, minha praça, perdem todo o resquício de sua inocência. Os boas-praças. Os caras ruins. E eu. Eu, persona, habitante desta praça. Parado. No meio do muro que não é muro, é banco. Vendo tudo passar e imaginando se estou parado sozinho aqui no banco, ou se eles me acompanham, por repetir sempre o mesmo giro da roda da vida.

É, meu amigo. Tanto faz. Não sou feliz, nem sou infeliz. Tenho meu banco e ele me basta. As pessoas devem me olhar torto, me chamar de vagabundo. Eu ligo? Talvez, quem sabe...

Minha mente gira novamente. A fumaça se dissipa. O líquido acaba. O fim de mais um ciclo se aproxima e me exige certa ação. Penso brevemente no que posso fazer, olho para o lado novamente, peço a atenção do casal e indago:

- Você tem mais um cigarro? E se possível, me dá um gole de vinho?

Não sei quem gira a roda do mundo. Mas, por favor, não gire rápido senão eu vou vomitar.

4 comentários:

Hermes Veras disse...

Deu para sentir o cheiro de mijo típico de uma praça de Fortaleza - sinto falta. Embora as de Belém sejam mijadas da mesma forma e também possua suas figuras. Esses personagens urbanos... sempre a nos incomodar, certamente filósofos do absurdo, chafurdadores da indignação.

CA Ribeiro Neto disse...

Como antigo participante do bairro e futuro morador, sinto todo o carinho do bairro que provavelmente sei que isso aconteceria...

Admiro muito a forma você expressa os fatos que lhe aparece e lhe percebe!

Paulo Henrique Passos de Castro disse...

As praças me chamam atenção. Já pensei em escrever sobre elas, mas ainda não fiz. Muitas solidões, como a do cara aí, muitas afetividades, muitas cabeças, etc.

Essa postura de propriedade da praça é bem curiosa, prum espaço que é tão de todo mundo. Na verdade, é de todos e de cada um

Pedro Piluca disse...

Toda praça tem suas peças.