domingo, 1 de março de 2015

Claybom

por Danilo Maia
Twitter: @DaniloTakakara
Coluna Faça [P]arte de tudo


Quando eu comentei que morria de raiva e inveja de pessoas talentosas, ela disse que fazia sentido, afinal, eu não tinha talento algum.
Só depois de concordar é qu’ela afirmou ser uma ironia.

 - Não há espaço para ironia aqui. A conversa é séria e eu realmente não tenho talento. – revidei. 
- Cala a boca. Tua voz é gostosa quando fala sacanagem, mas quando resolve sentir pena de si, nossa, é um saco. 
- Eu não ‘tou sentindo pena de mim. Falei a verdade e pronto. Só isso. 
- Tua verdade é um saco. Aumenta o volume dessa música – é a minha preferida – e vem me beijar qu’é mais proveitoso.

Enquanto a música tomava conta de todo o cômodo, o incômodo tomava conta de mim. Pensava num argumento para contra-atacar. Tinha que dizer algo.
Ela, sempre lendo os meus pensamentos sem minha autorização, me veio logo com um “Já disse pra calar a boca. Se não for falar sacanagem no meu ouvido, nem começa!”. Parei com a mão no ar e a boca entreaberta. Por fim, falei:
 - ‘Tou proibido de falar na minha própria casa?!
 - Se for falar merda, sim.
 - Às vezes, é necessário dizer algo sobre o que nos atrasa. Coisa de análise e tal.
 - É necessário dizer sobre o que nos move. Coisa de atitude e tal.

Ela sabe debochar de mim como ninguém. E me desarma fácil. Eu, tão bom em argumentar, incrivelmente, perco a briga sempre. Não qu’eu queira ganhar, mas... Ok, eu quero ganhar, sim. Admito.

Aumento um pouco mais o volume da música e vejo o tão pouco conhecido silêncio – que há entre nós – se perder naquele ritmo, dançando freneticamente. Enquanto nós ficamos parados imitando as estátuas da nossa sala: Vênus de Milo e Davi de Michelangelo. Patéticos, mas ainda apaixonados. Ou, apaixonados patéticos. Porém, nem um pouco parecidos com “casal de margarina”. Uma coisa é certa, a gente não tem vocação para ser aquilo.
Há paixão e fogo na nossa relação. Parece que estamos sempre buscando uma briga pra sacudir e nos tirar da mesmice. Acho até que a gente se alimenta disso.
“Dois doidos dividindo dores, discussões, desilusões, desentendimentos, devaneios e delírios”, penso.
Enquanto isso, ela olha pra mim e sabe que ‘tou divagando. Ri do meu jeito disperso.
Gosto dessas brincadeiras com palavras, isso me faz pensar que ‘tou fazendo poesia. Mas eu sei que não. Não tenho esse talento também.
Isso!! Lembrei de um talento! Finalmente sei o que dizer:

- Talvez o meu talento seja reclamar... – falei assim, displicente.
- Sabe, vou concordar com você. Há uma sofisticação na tua reclamação. Apesar de ouvir todos os dias, nunca me parece repetida. Gosto dessa novidade que você traz. O frescor do teu mau humor é requintado.
- A tua ironia também. – replico.

            A gente ri. Pausa na briga. Beijamos-nos.

6 comentários:

Pedro Piluca disse...

Tem relações que bombam!

Gostei muito do texto!

Amanda Jones disse...

<3

Paulo Henrique Passos de Castro disse...

Ah as brincadeiras com as palavras!
Gostei do texto, ó!

Danilo Maia disse...

Valeu, Pedro! ;-)

Danilo Maia disse...

=3 =* <3

Danilo Maia disse...

'Brigado, Paulo! ;-)