segunda-feira, 23 de março de 2015

Linguagem para uma apresentação tardia



por Fábio Rabelo Rodrigues
e-mail: fabiorr87@hotmail.com
Coluna: Linguagem para Amar e Ruminar


Acho curiosíssimo o alerta que se pode dar aos leitores quando se lida com a prosa. É uma coisa, talvez, de estilo. Os machadianos sabem bem do que falo. Um tato, um contato de boca a boca ou algo que esboça essa pretensão. Eu poderia partir, por exemplo, alertando a todos que “isto é uma apresentação” e me libertando do encargo de decepcionar quem me venha ler, ou poderia, exercitando o ócio e a paciência alheios, dizer que “isto não é um cachimbo”. Enfim, tudo são meros exercícios. E o propósito deste texto é deveras servir de apresentação.

Pois bem, quando ao convite do querido Carlinhos, comecei a pensar esta coluna, havia me seduzido uma ideia bem antiga, do tempo que essa coisa de escrita, que isso de se deixar rabiscar era um bocado mais frequente e mais preciso do que hoje é. Ao tempo do convite, aliás, lembro-me de que tinha já engavetado um texto pronto, o que me polpou uma primeira escrita (momento adiado pra agora). O texto era parte de um projeto antigo meu e da Lara Vasconcelos. Mas o projeto não vingou e o texto ficou guardado. Bom, começo a contar isto de forma a me esclarecer e a deixar por escrito um cartãozinho de visita. Não gosto de cartões de visita, mas a analogia é precisa.

A linguagem para amar e ruminar, a quem devo o título de um pequenino furto à obra do poeta Herberto Helder, se entrega ao leitor, com muito mais do que carinho, mas com um louvor de quem pretende fundar um lugar, um quartinho dos fundos que seja, que se pretende servir de mínimo abrigo aos poetas sem qualidades que compõem o meu lugar de afeto na poesia luso-brasileira contemporânea, e que, sinto, carecem de que eu lhes fale a respeito. Afinal, este é o espaço na literatura a partir de onde me organizo; a poesia brasileira e portuguesa produzidas do modernismo para cá é precisamente o que trarei ao Vem-Vértebras. É claro que esta classificação acadêmica acostumada a movimentos e escolas não comporta nossos desejos (se assim fosse, deveria excluir deste diálogo com a contemporaneidade poetas como Augusto dos Anjos ou Sousândrade, o que me parece, ao menos, injusto), mas é especialmente desse período que alberga as duas primeiras décadas do século XX até os nossos dias que se situam a maior parte daquilo que me toca e que me mobiliza e é capaz de dizer ao nosso tempo o que lhe cabe de seu nessa partilha.

Alternadamente, trarei o perfil de algum poeta luso-afro-brasileiro acompanhado de um pequeno apanhado de versos do autor em destaque; outrora trarei a esta mesma coluna um texto autoral, seja um poema ou um conto miúdo. Isto me custa um pouco menos. De todo modo, o convite está feito para que me acompanhem com os olhos, com a boca, com o corpo. Pois o nosso corpo é sedento por uma linguagem para amar e ruminar.

3 comentários:

Hermes Veras disse...

Fábio escreve como se estivesse copulando com as palavras. Sensualíssimo.

Pedro Piluca disse...

Hermes vê cópula em tudo.

Pedro Piluca disse...

Vou nem mentir, sabia que esses poetas existiam não! Mas amei descobrir. E gostei da escrita também!