domingo, 17 de maio de 2015

(h)ouve

por: Hermes de Sousa Veras
Cearense em devir-Amazônia.
Dizem que ficou sombreado na mata
e voltou falando sobre profecias de fim de mundo.
Coluna: Etnoliteratura
Ananindeua, 10 de setembro de 2014.


Cenário:
O som dos metais dos armadores friccionando e rangendo, a espalhar solidão pelo quarto em penumbra. No fundo da rede, o homem velho.

Objeto principal:
O radinho de pilha, aquele não substituído pela função FM do telefone celular, colado, quase totalmente enfiado na larga e curvada orelha, com frequências que transcendiam àquele sentimento de abandono.

Acontecimento:
Um cachorro ladra e o gato percorre as telhas da casa. Como não fizesse parte do cenário, a rasga mortalha age grasnando, esgarça partículas de sons-resíduos pelo mundo puído daquele homem repleto de anos.
O velho fazendo-fazer o ‘pela cruz’, lembrou-se do Finado Leopoldo, Finado Pedro e Finado Matias. Evitando invocar Finada Lindinalva, a esposa. Quando tomou por si a rede já era estática. Percebeu a coligação entre o movimento de seu mediador do sono e os pensamentos. Com os pés enormes, as dez navalhas enferrujadas e amareladas apoiaram-se na parede e o pensamento tornou a fluir.
Era hora da Hora do Brasil. Respondia os locutores. Indagava coisas. 
Mas a rasga mortalha tornou a finalizar. Fez dueto com a lua, simultaneamente uma osga caiu na rede. Com os dedos entrevados da mão esquerda catou a pele gelada do bicho, arremessando-o. 
A parábola-corpo se fez parábola-referência. E se simplesmente falasse Lindinalva? Ao omitir o advérbio condicionante de morte de Finada Lindinalva, tornaria Lindinalva a ser apenas Lindinalva? 
Houve um toque frio nos pés.

3 comentários:

Sandra Alencar disse...

Massa! Adorei. Me senti ao lado da rede pensando em Lindalva! Sensibilidade é tudo!

Sandra Alencar disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
CA Ribeiro Neto disse...

Como falei, este texto me lembra Drummond! E isso é ótimo!!!