sábado, 17 de outubro de 2015

Pelo baixo

por:
Hermes de Sousa Veras
Cearense em devir-Amazônia.
Dizem que ficou sombreado na mata
e voltou falando sobre profecias de fim de mundo.


– Eu discordo disso aí que vocês estão dizendo. Semana passada acompanhei um caso igualzinho ao dela. Não foi batida não, quem aplicou é que deve ser inexperiente.

Priscila, alheia aos comentários, interage com qualquer um que a perceba. Um balançar de rabo ali, uma lambida nos pés acolá. O pelo baixo, rente ao corpo, fica bastante confortável esteticamente com a coleirinha rosa, principalmente se repararmos em sua cor equivalente ao coco queimado.

– Foi irresponsabilidade sim. Ele deve ter aplicado no lugar errado. Semana passada um rapaz fez isso, estou dizendo! O cachorro ficou com um abscesso quase exatamente desse tamanho.

Keycianne, a olho desnudo, compara os dados, mede experiências. Atirou olhares acusatórios para o casal, mas calou-se, da boca ao menos.

– Vocês levaram ela para o veterinário, né? – Marciana entra no júri, enquanto Priscila, em duas patas, a convida para bailar.
– Na verdade nós levamos para o veterinário mas quando ele aplicou ela se assustou e se esperneou...
– Me desculpa mas eu preciso discordar de você, totalmente. Não foi se ela se moveu ou deixou de se mover não, meu filho. Foi inexperiência. Aqui a gente aplica sempre no lugar certo, não tô lhe dizendo, não? Semana passada mesmo tinha um cachorrinho com um abscesso desse tamanho.

Keycianne certamente perde seu tempo em um balcão de pet shop de bairro. Sua área é ciências, tanto biomédicas quanto as do espírito. Media atos, comparava corpos, especificidades e superfícies. Dos comportamentos abstraia interpretações psicológicas. A conheci a pouco e sabia-lhe ciente. Aproveitei a distração causada por Priscila, novamente em duas patas, parecendo feliz apesar do abscesso não tão imenso quanto o alarde, mas de volume suficiente para causar pena. Pedi cinco contos de ração para passarinho.

Marciana parecia querer sequestrar Priscila. Fez a pergunta indiscreta, inclusive.

– Ela morde?

Para essa indagação não precisava de resposta, contudo, Priscila a deu.

– Pode deixar, meu filho. Cinco, né? Pois é isso. Vamos aplicar um anti-inflamatório. Quantos anos ela tem, é novinha né? Um bebê.

Com o elogio, virou-se para a vendedora e ensaiou uma caminhada. Mas como se não houvesse nada que justificasse, Priscila parou. O rabo não movia, os olhos calados, focinho outrora lustroso agora seco. As patinhas irrequietas, imóveis. Parecia uma cadela pausada.

O mistério termina como começa. Paralisados todos ficamos, mas não sabemos dizer, embora não tenha indagado aos outros, pois os desconheço, quanto tempo durou. Logo, ou muito após, Priscila girou seu próprio eixo e olhou para os pais.

Eu tive que retornar para casa e alimentar meus pássaros. Como só observo e descrevo o movimento, não construo inventários sobre finais felizes ou tristes para agradar vocês.

Era um abscesso e tanto.


Fortaleza, 4 de outubro de 2015.

Um comentário:

Sandra Alencar disse...

Priscila é uma graça! Fiquei com vontade de dançar! Adorei o texto, você abriu uma janela!