sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

O Extrangeiro

Coluna: Sobre Vênus


Saí de Fortaleza no dia vinte e nove de Agosto, sozinha, rumo ao mundo. Conseguira uma bolsa de intercâmbio para estudar em Madrid, Espanha, por quase um ano (dois semestres pra ser exato). 
Imaginem o que se passa na mente de quem está se jogando sozinha no mundo pela primeira vez! 
No avião, minhas mãos tremiam tanto de adrenalina que eu não conseguia pôr o cinto…
Mas estava feliz, com medo, ansiosa, assustada, em êxtase.
Hoje eu vejo que eu não tinha a menor ideia do que ia viver. Vinha nervosa de ansiedade, medo do desconhecido, mas totalmente inocente de como é ser uma adulta em outro país, sozinha, pela primeira vez. Na verdade, é muito bom, mas, como muita coisa me pegou de surpresa e tive muitos momentos dolorosos, esse intercâmbio me mostrou que viver fora, mesmo com bolsa de estudos, não é nada fácil. Talvez porque a cultura e o modo de viver dos espanhóis seja bem direta e ríspida, comparada ao dia a dia no Brasil, o choque cultural tenha sido bem maior.
Vinte e quatro horas depois, cá estava eu em Madrid, esgotada física, mental e emocionalmente. Não entendia nada que me falavam em espanhol, não sabia o que fazer comigo mesma e quando cheguei em casa, só queria minha mãe. 
Mas foi assim mesmo, eu era um filhote de cachorro quando chega numa casa nova: medroso, acuado, foge de tudo e faz tudo errado. Fui rude sem querer e simpática quando não devia. Tinha medo de perguntar coisas na rua e me responderem rudemente; não gostava de falar meu nome porque não entendiam, nem gostava quando de cara já sabiam que eu sou brasileira.
Em contrapartida, quando entendi como funciona a cidade, o metrô, os autobuses, não conseguia ficar em casa. Saía sozinha ou com uma nova grande amiga pra todo lugar, pegava qualquer ônibus e descia em qualquer parada pra conhecer a cidade e me encantei.
E cresci me levando ao estrangeiro, ao exótico pra mim.
E continuo crescendo, todo dia.
Minha autoconsciência cresceu, meus defeitos e covardias se tornam cada dia mais visíveis pra mim, e constantemente vou me reconstruindo ou me fortalecendo.
Quando alguém se põe como um aventureiro, um exótico mesmo (no meu caso, não por ser brasileira, mas sobretudo por não (!) ser espanhola), tudo que é seu vem à tona. Tudo que é cotidiano, normal, vai pra lâmina do microscópio, porque tudo é diferente, e você se questiona o motivo de seus costumes, o motivo dos costumes dos outros, de onde você aprendeu tal comportamento… 
Com o idioma é igual. “Comparar” dois idiomas com raíz comum como o português e o espanhol é interessante demais! Consegue-se ver muito do temperamento e da cultura dos países através da forma como se fala, a sequência dos elementos das frases e orações, os palavrões (coño, como esse povo fala palavrão!), as formas de insulto, as cordialidades.
Nesse processo, o estrangeiro tem uma visão crítica, tanto de si mesmo como do que se está observando. Ser aventureiro é se jogar no desconhecido, é descobrir na experiência, é ser criança observando e imitando os adultos, mas com uma consciência intrigante.
Nesses cinco meses tive sim muito medo de ataque terrorista, muita festa, gentileza inesperada de estranhos, grosserias sem motivo (aparente), medo de ser presa, amizades espontâneas. Neve, sol às vinte e duas horas, viagem de trem, disciplina reprovada, falta de dinheiro, liberdade total.  
Solidão, autoconfiança, covardia, felicidade, contas e mais contas a pagar, cuidar de uma casa e de mim.
No recesso natalino, fiz uma viagem com amigos lindos, por cidades lindas do leste europeu. Pensei muito sobre quem eu sou, quem é meu país e o que a gente gosta de mostrar, de deixar como legado, para as pessoas apreciarem o nosso lugar no mundo, para saberem que “eu estive aqui”. Vi monumentos, palácios, igrejas, catedrais, templos, parques, bares, museus. 
Em Viena, fiquei cara a cara com a Vênus de Willendorf, um sonho que tinha desde a época do colégio. Maravilhada por estar ali, vivenciando aquela estatueta tão menor do que eu imaginava, tão mais antiga e distante do que eu sabia. 
Vênus. 
O maior símbolo do feminino. É símbolo da fertilidade, da sensualidade. É mãe. Mas, pra mim, sobretudo é, símbolo de mim mesma.
Sou eu aquela estátua, todas as mulheres.
Ser estrangeiro é peculiar por cada característica sua. A experiência feminina é bem diferente da masculina. Os solteiros, os namorados, os casados, os novinhos, os “velhos” (eu). Tudo muda a perspectiva (ou percepção) da experiência de um viajante.
Na Espanha, a mulher (apesar da constante visibilidade e denuncia de violência de gênero, da tão recente conquista de direitos sociais e outras coisas)  tem voz forte, grita mesmo, se impõe, tem liberdade pra ser, volta bêbada de madrugada de ônibus (até a pé), como não é tão fácil e seguro no Brasil.
Estar nessa cidade sozinha, morando sozinha por dois meses me permitiu ser livre (não de namorado e família, mas em relação ao mundo).  
Deixar cachorro, pais, casa, amigos, vida, foi bom demais, principalmente pra saber que eu também sou eles.
Em Budapeste, o que mais me impressionou foi o contraste entre cidade e moradores. Enquanto a cidade era só imponência, história, com seu parlamento maravilhoso, o rio Tâmisa,  museus, ópera, bares e pubs irados, as pessoas, em sua maioria, não eram poderosas e felizes. Budapeste foi o lugar que encontrei mais bêbados sendo bêbados nas ruas, pessoas mal humoradas, olhares tortos (acho que até me xingaram na rua uma vez, mas quem entende aquele idioma?). Em um pub, o garçom praticamente jogou o menu em húngaro em cima de mim depois de eu fazer uma pergunta em inglês. Talvez o frio de -18C deixe as pessoas naquele ânimo, mas me perguntei muito como se vive daquela forma.
Enfim.
Com essa experiência, compreendi que o que eu mais quero deixar de legado sou eu mesma livre, quem eu sou.
Codificar essa viagem seria dizer “eu”.  
Botei a cara no Sol.

2 comentários:

CA Ribeiro Neto disse...

Parabéns pelo texto! Gostei demais desse teu começo aqui no Vem-vértebras! Minha aposta vai vingar!

Urgência em mudar disse...

Depois do Carnaval por aqui, depois do Recife e dos Clarins escutados a cada bloco que saia, ... Tainan você me revelou a humanidade escondida na Vênus, nos bêbados, nos medos e nos pubs de muitos outros mundos e lugares da terra. Não pelos bêbados, ou pela Vênus, mas pela flecha existencial que tem transpassado sua alma e seu corpo.

A riqueza da ida está no encontro da liberdade nua translúcida de você mesma. Que coisa boa é saber da sua grandeza de alma. Obrigada e parabéns pela escrita!