quinta-feira, 19 de maio de 2016

Experienciando

Coluna: Sobre Vênus


Numa aula, há pouco tempo, um professor questionou a mim e aos meus colegas: se fazem um clone de você, sua cópia será fisicamente idêntica a ti, mas você e seu clone terão a mesma personalidade? Os dois serão a mesma pessoa?

A resposta seria não, porque nós somos nossas experiências e seus desdobramentos. Se realmente existe alma, ela está em nossa memória, não em nosso coração, e isso nao é copiável, nem transferível. Pode ser demonstrado, verbalizado entre pessoas, mas ouvir e aprender da experiencia de alguém não é igual a experienciar algo “uno mismo”.

Nós vamos amadurecendo enquanto envelhecemos? Não. Amadurecer me parece, agora, saber lidar com a experiência, exercer a memória e colocá-la sempre em perspectiva.

Nós somos um amontoado de experiências e também a falta delas. 

Conversando com alguns amigos, nos vimos numa discussão sobre as diferentes formas de aprender, de amadurecer através de um intercâmbio. A discussão começou porque eu critiquei a estrutura do meu programa de intercâmbio aqui na Espanha, que, diferente de outros países, como EUA, não tem um sistema de apoio ao estudante intercambista. Não temos coordenadores de intercâmbio, conselheiros, padrinhos, ninguém responsável pelo nossa atividade acadêmica, apenas responsáveis por algumas burocracias. Falei, depois, que me senti “jogada na cova dos leões”, e que não aproveitei nem metade do que deveria, academicamente. 

Foi tudo nas coxa. 
E que, por mais que a gente aprenda a se virar nessas situações, nesse contexto, ter um orientador, conhecedor do centro em que tô estudando, que me aconselhasse numa linha de estudos, explicasse a natureza das disciplinas, o funcionamento das avaliações, eu teria uma bagagem bem mais rica de conhecimento por agora. Nós chegamos pra estudar em turmas de metade e fim de curso, não nos primeiros semestres, onde se aprende tudo. Nós viemos de um sistema de ensino diferente, numa relação aluno-professor diferente, até o calendário acadêmico é diferente do Brasil. Há gente que aprende num instante e gente que se perde em tanta desinformação (como eu). E eles (meus amigos), refutaram dizendo que não, que a melhor forma de aprender é se virando, sozinho. 

E aí comecei a pensar sobre isso.
Esse ano de intercâmbio foi um ano consideravelmente difícil e doloroso em minha vida. Pessoal e academicamente. Não que eu esteja reclamando. Na verdade eu sou extremamente grata a essa oportunidade que tive. Mas eu me vi completamente sozinha, responsável por mim e meu namorado, nossa casa, nossa alimentação, pelas contas, por meu corpo jogado no mundo, meu status de intercambista… e foi difícil demais. Não vejo a hora de voltar pra casa. Também minha ausência na vida das minhas pessoas (e do meu cachorro) foi e está sendo uma coisa muito difícil de lidar. Perder as experiências em coletividade, perder algo importante e também as coisas poucas do cotidiano ensinam (e maltratam). Ver a "minha" vida acontecendo no Brasil e não fazer parte é bem doído, ao mesmo tempo que o que eu experiencio aqui e quero dividir com alguém de lá (daí) é impossível. Posso contar, explicar, descrever, mas aqui eu vivi, não vivemos. Sim, nesse momento que me vi como que “amarrada à frente de um espelho”, sem outra alternativa que não olhar pra frente, me fez me ver melhor. Mas ainda acho que uma rede de apoio seria imprescindível, as dores desse ano vão ficar em mim pra sempre. Experiência. Mas, por exemplo, se ver num ambiente hostil e conseguir tirar uma boa experiência disso, pra mim, é maturidade. Aprender a aceitar os outros, a negatividade, a arrogância, o pessimismo e, o melhor de tudo, a super felicidade de alguns quando eu não estava alegre também, nos ensina a dançar conforme a música, sem deixar de ser quem somos. Aprender com o diferente, sempre. Nós somos um amontoado de experiencias, e temos que aprender com elas. Mas fica o aprendizado: uma experiência sozinha (e por si só) não faz o verão.

Um comentário:

Petit 7 Vidas disse...

Queria estar no seu lugar!! XD