sábado, 21 de maio de 2016

Uma estranha luta

Clauder Arcanjo
clauderarcanjo@gmail.com
Coluna: Portão de Licânia

Para Audifax Rios
(In memoriam)





Cuide de armar o seu povo que a luta está chegando. Forte e sangrenta como nunca vista nesta Terra de Padre Antônio Tomás — fora as primeiras palavras do homem de paletó e gravata que havia descido da PVAL.
— Glória àquele que vem do céu. O senhor esteja convosco! — saudou-lhe, uma vez mais, o nosso missioneiro.
Em seguida, Cambono fechou os olhos e recolheu-se em oração. Na sua fronte cândida, nenhum sinal de preocupação. Como se uma fé inabalável guiasse os seus passos neste mundão de meu Deus.
— Desci dos céus porque, de lá, acompanhava a desgraça que está sendo construída contra vocês. Vou lhe relatar um pouco da minha história recente. Sou juiz de direito desta comarca — bem, ainda assim me considero —, quando fui abduzido por uma nave espacial na apuração da última eleição para prefeito de Licânia. Morei na Porra Voadora nos Ares de Licânia (PVAL) algum tempo. Nela, fui bem tratado, acompanhando tudo que aqui acontecia. Os alienígenas me apresentaram muitas outras coisas; em especial, novas verdades. Uma delas, para começo de conversa, foi com respeito à nossa política. O bem comum não guia mais os nossos projetos políticos; o eleito, mal bota a mão no poder, usurpa-o e faz pouco das promessas de campanha. Pimbas-pretas, pimbas-brancas, ou de qualquer outra cor ou matiz ideológico, são tudo farinha do mesmo saco imundo. Ao ser levado para o céu, tive medo que a baderna pudesse se instalar na administração da cidade. Qual nada! Nada mudou. Olhe como, há meses sem prefeito eleito, a nossa situação não se alterou em nada de nadica. Os agricultores continuam a luta dura na terra árida, as lavadeiras na labuta de alvejarem os lençóis enxovalhados pelas damas da sociedade, os marchantes a abaterem suas reses e venderem as carnes em retalhos, os bodegueiros a misturarem suas pingas, batizando-as com os nomes os mais esquisitos: Amansa Leão, Sono de Santo, Tesão de Jumento, Jura de Bandido, Cabaço de Rapariga Nova, ou coisa que o valha — o senhor juiz falava, acaloradamente, gesticulando como um artista no palco.
Neste momento, uma nesga de riso quis aflorar na comissura dos lábios de Cambono, mas ele, depressa os mordeu, contendo-se a tempo.
— Desculpe algumas palavras mais fortes, minha senhora, é que este novo conhecimento adquirido me põe fogo e brasa nas veias — justificou-se, para Maria Abógada, o senhor juiz.
— Continue a sua preleção, senhor. Estou gostando do que estou ouvindo — curiosa, Maria Abógada já puxara o seu tamborete para mais junto do magistrado. Como se não quisesse perder nenhuma das sentenças proferidas.
— Pois bem. Pois muito bem. Pouco depois, eles me mostraram os desmandos com a natureza. Homens na calada da noite a cortarem nossas carnaubeiras, vendendo as mais retilíneas a preço de pinga ruim. Sem mencionar os agrotóxicos que nossos plantadores despejam sobre as plantinhas. Matam as pragas para, logo depois, matarem nossas fontes de água. E eles me demonstraram, lá de cima, que os nossos laboratórios já dispõem de tecnologia limpa para o combate a isto. Falta, apenas e tão somente, vontade política. Uma semana depois, enquanto aqui embaixo se discutia o casamento do senhor Ivan com Dona Therezinha Valladares, os alienígenas me apresentaram a luta pela terra, que se daria pouco depois em nossa comunidade. Cenas terríveis antevistas por um aparelho especial que eles detêm. O aparelhinho nos desvenda o futuro, quando este se nos apresenta com acento de desastre. Confesso que eu chorei, senhora Maria Abógada e senhor Cambono; os homens estão tramando algo impiedoso contra esta gente que se juntou ao seu redor. Acredite em mim, nunca vi terra tão arrasada...
Ao pronunciar a expressão “terra arrasada”, um grito de pavor ecoou na mataria lá fora.
Cambono arregalou os olhos, tomou do seu cajado e saiu. Mal pôs a cara para fora da caverna, sentiu um cheiro de desgraça no ar.
Às suas costas, o senhor juiz falou-lhe:
— Só você poderá evitar que estes homens, mulheres e crianças sejam vitimados por uma guerra tão sangrenta. Lá de cima, creia-me, li o fundo do seu coração. Nunca vi um homem de coração mais limpo e de intenção mais nobre. Deixe-me, Cambono, montar, com os mais novos, um cordão de resistência, enquanto a PVAL os recolherá para uma terra mais segura. Evitemos a terra arrasada.
Cambono, ao lado de Maria Abógada e do senhor juiz, levantou o seu cajado. Todos se ajoelharam.
— Povo de Deus. Há pouco, Nossa Senhora nos mandou um aviso. Em seguida, nos enviou um mensageiro. É hora de nos prepararmos para a partida. Mulheres, doentes, idosos e crianças sigam Maria Abógada para a parte detrás da caverna. Lá, de forma organizada e pacífica, vocês subirão aos céus na nave que trouxe o nosso mensageiro. Os mais fortes ficarão comigo, pois teremos que lutar para darmos tempo de que a viagem dos nossos se dê com tranquilidade. Quem não se achar pronto para o combate, por favor, junte-se aos que seguirão com Maria. Fui claro? — a voz de Cambono era imperial e forte. Límpida e altissonante, injetando coragem nas veias de todos.
— Agora, depressa e sem tumulto, mulheres, doentes, idosos e crianças sigam Maria Abógada.
Ninguém se moveu.
— Eu disse sigam Maria Abógada, minha gente! — repetiu Cambono.
Todos permaneceram ajoelhados.
— Vamos, minha senhora, traga os seus filhos e os mais velhos. Ajude-me! — Maria Abógada conclamou a uma idosa que estava bem junto a ela.
— Não deixaremos nosso Cambono sozinho. Somos todos uma só família, minha senhora. Lutaremos juntos. Morreremos juntos, se for preciso.
Ouviu-se um estrondo mais forte na mata perto do rio. Um cheiro de pólvora tomou os céus.
Neste exato momento, a voz de Jacinto Gamão:
— Se é pra lutar, vamos lutar. Não se preocupe, senhor Cambono, faremos bonito.
Resoluto e determinado, cabo Jacinto Gamão foi despejando ordens:
— Os que estiverem armados de qualquer tipo de arma de fogo, acompanhem-me. Vamos fazer uma barreira de defesa no alto das copas das oiticicas, cinquenta braças à frente. Aqueles que dispuserem de armas brancas: facas, facões, peixeiras, canivetes... fiquem duas fileiras atrás das copas; se alguém escapar da nossa linha de tiro, passem eles na faca. E, por último, quem não tiver arma de fogo, nem arma branca, cuidem de se armarem com cacete de madeira, o mais grosso possível; vocês serão deveras úteis se alguém furar os dois cercos montados. Não se esqueçam de baixarem o cacete bem no meio do quengo dos desgraçados. Se vocês forem baixinhos e os cabras, altos... bom, aí quebrem os bagos deles a pau.
— E nós mulheres, seu Jacinto? — indagou uma senhora de porte alto e de tez morena.
— Façam o que lhe derem na telha. Deus conduzirá, e guardará, nossas mulheres. Amém! — respondeu Jacinto Gamão, sem ideia melhor a ocorrer-lhe no cocuruto guerreiro.
E a luta, uma estranha luta, estava para começar.

Um comentário:

Pedro Piluca disse...

Só eu que fico curioso nessa joça?!