sexta-feira, 27 de maio de 2016

Caminhar não basta

 Maria Freire
 Coluna:


            Lá ia ela caminhando sem rumo pela estrada, mil pensamentos agitavam em sua cabeça. Pensava aflita na felicidade que desejava e que não tinha alcançado. Sentia-se triste e incompreendida em um mundo que não lhe pertencia e se perguntava o que a obrigava a ir sempre mais longe naquela estrada longínqua e triste, mas não encontrava respostas.
            Ela caminhou por anos naquela estrada e parecia que sempre seria assim, andar sozinha, descolada e incompreendida. Por horas parecia que ela era errada no mundo. E isso despertava nela uma tristeza, que nada lhe tirava a dor que estava passando. Ficava remoendo pensamentos ruins, carregando mundos invisíveis que pesavam sobre os seus ombros. E algumas vezes, a dor era tanta que ela precisava sair de alguma forma, por isso as lágrimas lhe caiam do rosto e ela permanecia naquela estrada sem rumo.   
            Diversas vezes tentou sair daquela estrada, mas por mais que tentasse sair, não conseguia, pois ela era atraída pelas falsas esperanças que a estrada oferecia.
            Um dia, enquanto ela caminhava, percebeu o vento, que passava pelo mesmo caminho, com o seu sopro secando as lágrimas em seu rosto triste. Ela tentou desviar-se do vento, pois ela não queria nenhum intruso no seu caminho.
            Mal sabia ela que aquele vento a surpreenderia e mudaria todo o seu caminho e pensamentos. E antes que ela conseguisse seguir o seu caminho sozinha, o vento sussurrou em seu ouvido que ir mais longe e caminhar por aquela estrada não é a necessidade de lutar com os seus limites. Ir mais longe é algo mais simples e íntimo: é o instinto de existir na natureza à sua maneira. Um instinto que a mantém acordada à noite, que a ilumina e a entusiasma.  E não segui-lo seria o mesmo que trair a si mesmo.  
             Hoje, ela sabe que, mais importante que caminhar, é conseguir se sentir plenamente viva imersa em um espaço aberto, livre de estradas. Ela não caminha mais por aquela estrada, mas segue sopro do vento que a fez conhecer quem ela é.


4 comentários:

renata maia disse...

Muito lindo esse texto,sei muito bem como é se sentir assim, ainda bem que não encontra-se mais presa nessa estrada , deixar o vento nos conduzir nos faz muito bem.Adorei o texto esta de parabéns.

CA Ribeiro Neto disse...

Bela estreia!

Hermes Veras disse...

Espero que continues por aqui. É bom ter mais uma escritora no Vem! Adorei o texto alegórico.

Jorge Virgilio disse...

Ficou ótimo. Parabéns!