quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Estrada que seduz

por:
Hermes de Sousa Veras
Ligeiramente sombrio. No mais, consideravelmente feliz e tropical.


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Enquanto seguia eu mesmo o meu caminho, deparei-me com um homem diferente. Não desigual e desconforme nas formas físicas, mas destoante do cenário. As velas do Mucuripe ao fundo e o mar imenso e cheio de intensões solicitavam pés descalços e roupas leves. 

O homem estava vestido como se fosse importante. Sem perceber, parei ao seu lado e passamos a conversar, como se ontem fosse hoje e o tempo não importasse mais para criar relações humanas, “é estranho você estar tão arrumado”, “estou aqui para me despedir, não sou homem de posses, esse paletó de linho branco e essa calça nova de riscado são as únicas coisas boas que me restaram”. Silêncio, uma pausa para reflexão. As ondas em seus movimentos habituais eram porradas sonoras para o nosso encontro. “Vendi tudo”, ele disse. “Vou pela primeira vez ao exterior, lá preciso me encontrar”. Indaguei para qual país ele ia, com olhar carregado de sonhos apenas disse que era o mesmo país destino de todos nós do sertão. Qualquer lugar ao sul, “sei que vou sofrer, mas me lembrarei de voltar”.


Calamos para ouvir o mar, sabíamos que a conversa era entre três. Antes de partir com o sol, percebi um bigode bem cuidado em seu rosto.

2 comentários:

Danilo Maia disse...

Eita que texto lindo!!!!

Hermes Veras disse...

Oba! Ter um comentário sobre o texto no próprio blog é uma honra, luxuoso até. Fico feliz que tenha gostado! Abraços.