sexta-feira, 13 de março de 2015

COMO TUDO COMEÇOU... SÓ QUE NÃO!

Coluna: Dois minutos de ódio

PARTE 1 – COMO TUDO COMEÇOU

No início de 2012 eu comecei a trabalhar em uma livraria. Naquele processo de novos colegas que trabalham com livros começando a se conhecer, logo nos primeiros dias, um colega livreiro me perguntou o que eu mais gostava em literatura. Não precisei nem pensar, respondi na lata: “Distopias!”.

A reação dele foi um belo “É o quê, rapaz?!”, com a cara de que quem ouviu falarem algo em árabe, na língua do P, de trás pra frente!

Este episódio ilustra bem o destaque a literatura distópica tinha na época: nenhum! Eu já lia, pesquisava e amava distopias há alguns anos, mas no início de 2012 a grande maioria das pessoas não lia, não conhecia, não sabia o que era e sequer tinha ouvido falar a palavra.


 Mas aí, lá pelo meio do ano de 2012, Suzanne Collins mudou tudo! Eu não sei bem porque isso aconteceu nesse momento histórico específico, já que Jogos Vorazes foi publicado originalmente em 2008 e já havia sido lançado no Brasil desde 2010, mas o fato é que ali, em torno de abril e maio de 2012, o Brasil foi invadido por uma onda de adolescentes e jovens adultos que de uma hora pra outra se descobriram fãs de literatura de distopia, antes mesmo de ter contato com o termo que lhe dá nome.








Com o enorme sucesso da trilogia Jogos Vorazes, aconteceu o que se sempre acontece no mercado editorial: as prateleiras das livrarias (e das casas) foram invadidas por um monte de coisas parecidas, lançadas para saciar o apetite de quem já tinha devorado Katniss e queria mais! Houve um verdadeiro boom distópico e, de repente, todo mundo era fã de distopias desde criancinha!

“Quem não tem a inteligência para criar, precisa ter a coragem para copiar.”
Comandante Rolim, fundador da TAM

Nos meses e anos que se seguiram, apareceram várias outras séries distópicas adolescentes, como Maze Runner, Feios, Starters, Destino, Reiniciados, Divergente, Sozinhos, Seleção, etc, etc, etc.  Justiça seja feita, algumas das obras de literatura distópica jovem que pegaram o vácuo de Jogos Vorazes já haviam sido lançadas antes, nem tudo ali é cópia, e tem muita coisa de ótima qualidade. Mas não dá pra negar que há uma série de elementos em comum a estas obras, e que muita coisa foi jogada no mercado para suprir essa demanda recém-criada.

E o boom distópico não aconteceu somente no mercado editorial, mas na cultura pop adolescente em geral. Pelas redes sociais, pela blogosfera literária, pelo booktube (zona dentro do youtube povoada por leitores que fazem vídeos só falando sobre livros - sim, isso existe!), pelas livrarias, pelas escolas, pelas salas de cinema onde passavam as [extremamente lucrativas]adaptações hollywoodianas dessas obras, enfim, em todos os espaços, legiões de adolescentes se proclamavam não mais meros leitores, mas grandes fãs e profundos conhecedores da literatura distópica!

Não bastava ser #TeamPeeta ou #TeamGale, era necessário sair por aí com a camiseta e o botton, ter um blog, publicar uma resenha, escrever um post, fazer um vídeo e divulgar a sua própria listinha de Top Distopias, na qual inevitavelmente tinha de haver uma ou duas obras menos conhecidas, que estavam ali para legitimar o status de expert no assunto a quem fez a lista.

E então, a distopia deixou de ser uma ilustre desconhecida, ganhou os holofotes, virou mainstream, best seller, blockbuster, congregou uma legião de fãs, deixou um monte de gente super apaixonada e fez alguns autores e editoras ficarem cheios de dinheiro!

FIM


Não... Pera!


PARTE 2 – SÓ QUE NÃO!

Lá em cima, no iniciozinho do post, eu contei que antes de todo esse movimento acontecer, eu já era uma grande fã de distopias. Mas então, se o movimento é todo pós 2012, como é possível que eu já gostasse antes?! Como assim as distopias não são uma invenção do século XXI?!

Por incrível que pareça (ou não), o grande precursor da literatura de distopia não foi publicado em 2009!

Eu sinceramente nem saberia nomear qual foi esse grande precursor, mas certamente ele é um bocado mais antigo e provavelmente data lá do finalzinho do século XIX. Mas eu sei quem foi o grande precursor da literatura distópica na minha vida.



Aos meus 18 ou 19 anos, lá em 2004, eu li pela primeira vez um livro chamado 1984, do autor George Orwell, e aquilo marcou a minha vida. Foi exatamente como me apaixonar, me encantei logo nas primeiras páginas e voltei ao começo várias vezes pra aproveitar de novo. Quando finalmente comprei o livro, fui lendo devagarzinho, saboreando e economizando pra ele não acabar. Desde o início eu sentia que aquele seria o livro da minha vida. Lembro-me do momento em que terminei de ler a última frase e pensei “Acabei de ler o melhor livro da minha vida. Não há mais nenhum degrau pra subir. E agora?!”.

A partir dali foi tudo lindo, tudo novo! Como eu estava apaixonada pelo livro, queria saber tudo sobre ele, então fucei a internet caçando tudo que pude encontrar. E tem muita coisa na internet sobre 1984! O assunto deste texto não é 1984, um dia eu vou falar bem melhor sobre ele, mas aqui vale fazer duas ressalvas. Primeira: eu ainda considero 1984 o melhor livro já escrito, ainda o releio pelo menos uma vez ao ano e em todas as vezes confirmo esta opinião! Segunda: 1984 foi a minha porta de entrada para as distopias e não poderia haver melhor guia para me levar!

Nestas minhas pesquisas sobre 1984, uma palavra aparecia repetidamente: distopia. Ele aprecia frequentemente listado como uma das distopias mais importantes de todos os tempos, o que me fez querer saber o que era uma distopia e quais eram as outras da lista. E foi a partir daí que eu encontrei a grande paixão da minha vida: as obras de distopia!

Livros, filmes, quadrinhos, contos, séries, ensaios, curtas, animações, videogames... O mundo das obras distópicas é extremamente vasto e suas fronteiras são bastante flexíveis, ainda bem! Há obras eminentemente distópicas, mas há também muita coisa que alguns classificam como distopia e outros não, o que eu acho ótimo, porque enriquece o debate e não engessa o assunto! Há grandes clássicos, obras contemporâneas, uma série de subgêneros, autores icônicos, autores obscuros, distopias “óbvias”, obras de caráter distópico discutível... É um assunto vastíssimo, que me fascina e me entretém completamente há anos!

Depois do boom de literatura distópica pós Jogos Vorazes, frequentemente as pessoas pedem a minha opinião sobre o assunto, porque sabem que eu sou apaixonada pelo tema há muitos anos. E quando eu digo que acho ótimo, muita gente se surpreende.

Sim, eu li a série Jogos Vorazes! E vi os filmes no cinema. E li Divergente, Feios, Caçadores... E estou só esperando a estreia de Insurgente pra ir ver no cinema. Porque eu adoro distopias, ora bolas!

Eu nunca entendi direito esse pessoal que adora de uma coisa que não é famosa e que, quando aquilo vira moda, torce o nariz e diz que agora não gosta mais. Eu, na condição de fã antiga, conhecedora apaixonada e grande curiosa sobre as obras distópicas, fico é feliz pra caramba em ver o meu estilo literário favorito bombando!

Eu quero mais é que todo mundo leia Divergente mesmo! E que as salas de cinema de Jogos Vorazes fiquem lotadas! E que a internet transborde de textos, blogs, fóruns, vídeos, resenhas, comentários e opiniões sobre estas obras!

Mesmo eu ainda achando que nenhuma destas obras contemporâneas se iguala a um Admirável Mundo Novo ou um Fahrenheit 451, eu acho que estas obras também trazem algumas ideias muito interessantes sobre cenários distópicos e, principalmente, eu acredito que elas funcionam como porta de entrada para o maravilhoso mundo da literatura distópica, onde este público mais jovem poderá conhecer grandes mestres, gênios como George Orwell, Kurt Vonnegut, Anthony Burgess, e muitos outros!

Quando fui convidada a escrever uma coluna aqui sobre distopias, eu fiquei muito feliz com o reconhecimento de que este é um assunto que eu conheço, claro. Mas fiquei muito mais foi empolgada com a perspectiva de escrever sobre um assunto que eu adoro, fazer uma propaganda apaixonada da literatura distópica para quem ainda não conheça e, de quebra, ter a chance de trocar ideias com outros fãs do assunto que estão por aí e podem aparecer por aqui.

Espero e torço para que este espaço sirva para trocarmos ideias sobre obras, autores, movimentos, gêneros, clássicos, novidades e tudo mais que tiver relação com arte distópica! Podemos também conversar sobre a história das distopias, as definições, as fronteiras, os termos usados, os rótulos. E acho que vai ser muito interessante tentar sair da caixinha de livros e filmes distópicos e tentar achar uma música, uma poesia ou quem sabe até uma pintura ou uma escultura que possam ter esse olhar da distopia. Quem sabe, né?

Longe de mim achar que sou uma expert em distopias ou que posso ensinar quem quer que seja sobre o assunto. O que eu tenho é uma grande paixão, uma curiosidade infinita, uma estante recheada e uma enorme vontade de trocar ideias sobre distopias com qualquer pessoa que compartilhe deste mesmo interesse. Se este for o seu caso, volte no mês que vem, que a gente continua trocando ideias sobre DISTOPIAS!

5 comentários:

CA Ribeiro Neto disse...

Distopias são muito massa e é incrível encontrá-la em tudo que é arte! Estou com boas expectativas sobre essa coluna!

Pedro Piluca disse...

Excelente texto! Dinâmico, bem escrito e envolvente.

Gosto muito de distopias cinematográficas e literárias, mas graças a você, acho que finalmente entendi a arte de meu amigo Bruno Dourado.

PS. : estou escrevendo um livro distópico.

vonseux disse...

muito legal este texto, gosto quando é uma escrita tão parcial e pessoal assim pois a gente vê como o que está escrito é sincero e de verdade. minha distopia favorita? gosto muito de Fahrenheit, mas atualmente gosto mais de Partículas Elementares, pois diferente do mais comum, o mundo atual é muito mais perverso do que o mundo futuro retratado no livro, do mesmo autor e mais Nerd ainda tem o A Possibilidade de Uma Ilha. :)

João Gustavo Santos Silva disse...

tão dificil achar alguem que escreva bem assim hoje em dia... queria ter uma irmã assim :)

Paulo Henrique Passos de Castro disse...

Valeu por me fazer conhecer um pouco esse mundo que eu ignorava