Mostrando postagens com marcador Alex Costa - Em cada canto um conto. Mostrar todas as postagens
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sábado, 11 de março de 2017

À Petúnia

por Alex Costa - Facebook


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Central do Brasil, 14 de abril de 1998.

Ninha,
Tô escrevendo para saber como ‘tão as coisas por aí. Faz uns dias que ando meio cabreiro, já vai inteirar três meses que mandei uma carta pra Guida e ainda espero resposta, mas nada ainda. Sabe dizer se tá tudo bem por lá? Fiquei de voltar aí na semana santa, tô até com um dinheiro junto pra’mode ir mesmo, mas o doutor já disse que vai precisar de mim no feriado. No serviço tá tudo bem. Doutor Paulo é um homem bom demais, que Deus preserve! Me trata mesmo que um filho, Ninha, me tirou lá da fábrica e disse que eu ia trabalhar do lado dele agora, trabalhar andando com ele pra cima e pra baixo. No começo eu estranhei demais, ‘costumado no serviço pesado, que é serviço mesmo, mas agora ‘costumei nesse novo jeito. Dia desses, doutor Paulo cismou de ir no shopping depois do serviço [que é um prédio grande que só tu vendo, Ninha, empestado de loja de tudo quanto pra todo lado] e eu fui com ele. Chegou lá, ele botou a entrar em loja e sair de loja e eu fui pra carregar as sacolas. Aí a gente entrou em uma que tinha umas camisa dessas do pano bom, Ninha, que a mãe fazia pra mim e pro Ricardo, dessas quadriculadas. Parei na frente da vitrine e fiquei olhado, bateu até uma saudade de ganhar uma dessas das mãos de mainha, sabe. Quando dei conta foi doutor Paulo colocando a mão no meu ombro e “escolhe duas pra ti, rapaz... fique à vontade, ande”. Pense numa vergonha grande, Ninha, mas se o homem ‘tava mandando, tinha mesmo era que apanhar. Escolhi duas e tô mandando uma pro Ricardo junto dessa carta, tenho fé que ele vai se agradar. Aí depois dessas compras, a gente foi na casa do doutor, aquela que eu escrevi na carta da Guida, dessas casas estranha daqui, tudo atrepada uma em cima da outra. Nesse dia, doutor Paulo chegou que não se aguentava nem de pé. Quando entrou em casa deu uma suspiração tão forte que tenho pra mim que num fosse eu segurando o homem por trás, o infeliz [com licença da palavra] tinha caído. Pediu pra eu colocar uma dose daquelas bebidas estrangeiras pra ele e outra pra mim, o homem desmoronado no sofá. Mandou eu ir tomar um banho e disse que tinha uma comida na geladeira e que eu podia esquentar, assim eu fiz. Na volta, pense num susto grande que tomei! Doutor Paulo bem-dizer nu em cima do sofá, roupa no chão, copo vazio, o homem estava acabado. Fui devagar perto dele, apanhar a roupa e o copo do chão e não é que o home estava de brincadeira, Ninha! Dormindo nada, me deu foi um susto quando arrancou minha toalha e me deixou mais nu que ele. Pense num susto grande, Ninha. O homem caiu na risada e eu não me aguentei, ri também! Um homem divertido o doutor Paulo, nunca tive patrão que nem esse homem, santo homem trabalhador. Queria contar o resto das doidices de doutor Paulo depois disso, mas tô vendo que a folha aqui já está acabando, Ninha. Mas depois de umas doses o homem me chamou pra morar na casa dele, disse que tem uns quartos lá que ninguém usa e pelo menos eu faria companhia a ele, eu aceitei, Ninha. Pensando bem, que mal tem? O certo é que dou mais sossego a compadre Plínio, já que estava morando na casa dele e, tu sabe como é, Ninha, morando com família dos outros é negócio que não dá muito certo. Me despeço aqui, minha irmã, pedindo desculpas por não poder ir na semana santa, mas a saudade tá grande e doendo no peito. Mas cedo ou tarde eu volto aí, com fé em Deus e Nossa Senhora, eu volto.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

The Cousin

por Alex Costa - Facebook



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O dia começou nublado e frio, cinzento e preguiçoso. Jorge, sentado no sofá da sala de estar, esperava pela tia e pelo primo, vindos dos Estados Unidos, que desembarcariam no aeroporto naquela manhã. As poucas lembranças da tia, que fora morar no exterior ainda jovem, eram escassas e quase inexistentes. Apenas algumas fotos recebidas junto a cartões-postais. Primeiramente da tia e seu rico marido, dono de algumas lojas de conveniências e ações de empresas estrangeiras; depois chegaram outras que mostravam a tia e o filhinho, primeiramente ainda de colo, mas as correspondências permitiram que Jorge acompanhasse o crescimento de Peter. A diferença na idade dos primos era de apenas três anos: Jorge, com vinte e um recém-completos, e Peter, com dezoito, nos quase dezenove. 

Jorge, ou Jorginho para os de casa, era um mulato de estatura média, ombros largos e peitos cheios; os músculos dos braços - bíceps e tríceps - volumosos e à mostra. Os cabelos encaracolados, iguais aos de um anjinho; os olhinhos apertados e uma boca carnuda, os dentes reluzentes do aparelho. Peter, seu primo americano, um pouco mais alto e a pele branco-vela, desses que nos embrulham o estômago. Jorginho achava engraçado ouvir a mãe dizer: “Peter diz que não vê a hora de conhecer as praias do Brasil, chega até a sonhar, acredita?”

O toque repetido da campainha, acompanhados de três pancadinhas na porta, avisavam a chegada dos parentes nunca vistos. Jorge levantou-se, alinhou a camisa gola polo que usava e desabotoou o primeiro botão – de cima para baixo -, ficando à mostra os primeiros pelos do peitoral. Ao abrir a porta, sua mãe entrou sacudindo o guarda-chuva, Jorginho nem notara que chovia lá fora; ao seu lado estava uma mulher, muito bem vestida e os braços a despencar de joias, decerto sua tia. O primo apanhava a bagagem do porta-malas do táxi que estava estacionado na calçada, quando Jorge foi ajudar com o peso. Ao se aproximar de uma das malas que estavam sobre a calçada, Peter segurou em seu braço e pareceu assustado, fez uma cara feia e era como pedisse que Jorge soltasse a mala. Assim Jorginho o fez: despendeu-se da mão do primo e jogou a mala sobre a calçada novamente, que o branquelo levasse todo o peso. Eles não sabiam, mas começava ali o choque entre culturas, corpos e sentimentos universais.

[Continua...]

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Inácio

por Alex Costa - Facebook


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Na noite em que Inácio nasceu teve festa, era o primeiro a sair dum ventre que ainda guardaria mais oito. No que Inácio me contou, ainda é bastante comum no sertão as mães terem seus filhos em casa, com a parideira no auxílio, tudo ocorria bem. Mostrou-me uma fotografia em preto e branco, de quando criança, um porquinho de gordo. Passou-se pela infância como passa um menino, irmão de mais oito, que a vida põe a viver no meio de um sertão central. 

Quixadá não é cidade grande, segundo Inácio, que, embora seja um saudosista de sua terra, fala dela com um quê de beiço retorcido. Menino pobre que fora, sempre teve sonhos bastante limitados e, pelo que me contou, até o sentir da adolescência sua vida parecia estar deveras bem traçada. Seguiria o pai, Severino, plantador de cova rasa, no ramo do sertanejo semialfabetizado, plantador. Os irmãos e irmãs, de igual modo, seguiam sem sonhos. Inácio começou a tremer a voz ao chegar nesta parte, senti que nas entrelinhas haviam ficado muitas coisas, talvez por sentir que, àquela altura, já quase homem feito, deveria servir de referencial aos irmãos, que não estava sendo. Mas a vida tinha outros planos para Inácio.

Se tem coisa que menino de interior faz como menino da cidade, se tem sede igual entre os dois, chama-se bola. Traves de ferro, traves de paus, traves de chinelos no chão, não importa: Inácio dominava a arte da bola nos pés. E foi no campeonato ocorrido em abril que Inácio foi descoberto pelo olheiro. Teve um desempenho gigantesco naquele jogo, se sobressaiu a todos os outros jovens e homens. A proposta fora feita ao final do jogo, um aperto de mãos, a viagem para dali a duas semanas, destino Fortaleza. 

No dia da despedida, a família inteira estava na rodoviária, um beijo na testa de cada irmã, um abraço tímido no caçula, a quem Inácio mais se apegara na vida, partiu. O clube era pequeno, um pouco diferente do que o menino imaginara. O sócio do clube pagaria uma “pensão” para o jovem Inácio, que depois descobriu que a pensão era, na verdade, um quartinho que mal cabia sua cama e uma cômoda velha que equilibrava um espelho. A alimentação era regrada e tudo na cidade parecia difícil, surgiu no peito de Inácio saudade primeira de casa. Mas havia algo muito maior dentro dele, isso ele deixava se perceber nos olhos, no brilho dos olhos, uma luz na intensidade do sonho. 

Vivia basicamente de treinos e casa, não tinha dinheiro para mais nada que não fosse supervisionado pelo clube, que não lhe dava nada mais do que lhe fora acertado. Frente àquela situação, Inácio decidiu atender as propostas que há tempos recebia, desde que havia chegado à capital, era dinheiro bom que ele precisava, tinha que arriscar. 100 reais por uma hora foi o acordado no telefonema, nunca antes estivera com um homem, não daquele jeito, esteve trêmulo durante todo o dia – até escutar a buzina do carro no dia e hora marcado. 

Quando Inácio deu por si estava despido. O homem que estava na cama o via e respirava forte. O dinheiro estava sobre a mesa e Inácio precisava dele. Nunca antes fizera o que agora se consumava, estava tímido e sem jeito, nenhum fogo havia – mas haveria de ter, agora era obrigação. Inácio timidamente deitou naquela cama de olhos fechados, mãos suadas e boca seca – o homem apagou a luz.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Ao Papa Francisco

por Alex Costa - Facebook


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Francisco, meu amado,

Aqui quem fala é um protestante. Estou te escrevendo não para lançar crítica, criar polêmicas ou alimentar ainda mais essa rixa velada que existe entre católicos e protestantes desde tempos passados, não é isso. Escrevo somente para, como cristão, amigo e irmão por parte de Deus, te levar a repensar em umas afirmações que tu tens feito, cara, te dar uns conselhos. Você está errado. 

À priori eu fiquei sem entender esse pedido surreal de a igreja “dever pedir desculpas aos gays”. Na verdade, entendo que você simpatiza com esse público, mas pedir desculpas não seria exagero? Sei que se nós olhamos para a História teremos uma assustadora visão do que fizeram com homossexuais [inclusive em nome de Deus] ao longo do tempo: tratamentos com tortura, choques elétricos nos testículos, encarceramento, método Pavlov e exclusão social. 

Mas, entenda, meu amado irmão, tudo isso foi necessário para manter a ordem moral e ética, ensinamentos dados pelo nosso Deus, que criou apenas homem e mulher – não aberrações. Sei que devemos amar a todos e que o papel da igreja é de acolher a quem a procurar, sem julgamentos e sempre de coração aberto, isso eu entendo, mas você querer que eu ame e ainda por cima peça desculpas a um bando de veados afeminados e aidéticos é exagero de sua parte, ai não, sinto muito em lhe dizer, mas você está errado.

Meu amigo, peloamordedeus, que história é essa de comissão para fortalecer o papel da mulher na igreja? De onde tu tiraste essa maluquice? Sei que decerto deves estar pensando isso para a tua igreja, mas tu já imaginaste se isso se alastra e abarca a minha também? Já pensaste que loucura sem tamanho!? “A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição” [1 Timóteo -2:11]. Vês, o próprio apóstolo falou isso! Como assim fortalecer as mulheres? 

Sim, sei também que a História nos mostra as vozes das mulheres sendo abafadas pelo sistema patriarcal, que matou supostas bruxas, livres prostitutas e rebeldes contra ele, o sistema, que sempre imperou, mas é inegável que a mulher é culpada por toda a desgraça do homem, ah, isto é! Olha para o Éden, vês? Não importa se todas as guerras que mataram milhões de pessoas e dizimaram [também em nome de Deus] outros milhares de povos foram todas feitas por homens, não importa se queimaram Joana D’arc e o escambau: mulher, NÃO! Sei que sentes um apreço especial por elas, mas fortalecer o papel delas [que já está de bom tamanho sendo esposa-submissa] e ainda criar comissão para isso, ai não, sinto muito em lhe dizer, mas você está errado. 

Por fim, peço encarecidamente que pares de imediato com o teu mais perigoso discurso, homem: chega de pregar tanta Caridade! Desde que o mundo é mundo existe pobre e rico, existe criança morrendo de fome e afins, isso é natural, entendes? Sim, eu sei que a igreja deveria olhar mais para os necessitados e favelados que morrem de fome em cima do nosso nariz, mas isso a gente deixa pra depois, homem! Mês que vem tem retiro na minha congregação, congresso de jovens e adolescentes e ainda estou na organização de um louvorzão a 10,00 reais a entrada. Definitivamente, não dá! 

Os dízimos que recolhemos, meu Deus! Quase não dá para os nossos gastos pessoais e despesas com o templo do Senhor, precisamos até vender uns artigos gospels e fazer uns sorteios aos finais do culto para cobrir [embora o próprio Jesus tenha certa vez expulsado uma galera que fez, do templo, mercado]. Enfim, já imaginaste se, com todo esse discurso teu de caridade, minhas ovelhas decidem não mais dizimar e distribuir caridades entre os pobres? Ora, ainda mais essa! Olha, Francisco, começo a achar às vezes que tu és mesmo comunista! 



Vês, entendes por que se torna tão difícil o diálogo contigo? Vês por que não te reconhecemos como autoridade, homem? Pensa mais em ti, para de preocupações outrem, o mundo é melhor do jeito que está, não queiras ter a audácia de mudá-lo, de me tirar desse lugar de conforto, não sou como tu que trocas fácil uma poltrona de ouro por cadeira simples. Comunista, comunista! Chamo-te assim porque é assim que gente como eu, que mesmo sem saber o que diabos é esse sistema, chama essa galera igual a ti, que quer fazer essas coisas assim, essas coisas de bem, que eu deveria estar fazendo também – mas me abstenho, pois não me convém.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Jalecos

por Alex Costa - Facebook


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Certo dia um fisioterapeuta conheceu uma moça nutricionista e foi tudo de uma liquidez intensa. Em duas semanas, entre algumas saídas e conversas de risos frouxos, decidiram que se casariam, haviam encontrado um no outro o que faltava. Com a convivência, começaram a surgir umas e outras chamadas carinhosas, senta direitinho, meu amorzinho, dizia ele, pedindo gentilmente para que ela corrigisse a postura, senão a cervical seria danificada. Ela, como coerente profissional da nutrição, pedia com voz doce, não tome refrigerante, meu amorzão, acabarás com teu estômago ligeiro. Nenhum dos dois bebia ou fumava, haviam acordado que jamais fariam isso, saúde em primeiro lugar e longe dos vícios estariam. 

Acontece que ambos continuaram em seus hábitos sem perceber que incomodava o outro. Houve o toque. Já pedi para que tu não te sentes assim, mulher, disse ele certa vez ao chegar a casa e cutuca-la às costas, que estavam encurvadas; ela deixou para descontar na hora do jantar: somente folhas, saúde verde, ele enlouquecido. Nem um nem outro abria mão de seus hábitos que, ao ver de cada, não fazia mal nem um golinho de refrigerante diariamente nem muito menos deitar-se um pouco mais à vontade no sofá.

As brigas tornaram-se um pouco mais intensas, pois ambos decidiram investir pesado na correção um do outro, sem abrir mão do que achavam certo. Houve toques mais fortes. Tu me fazes ter que tomar atitudes assim, dizia ele, quando ela chorava pelo murrinho que ele lhe aplicara nas costelas. A relação já estava em situação insustentável. Houve o falatório em divórcio – nem seis meses haviam da lua de mel. Ela já não mais fazia comida, dona de casa que se tornou, ele dera para dormir fora de casa algumas noites, ela sem preocupação. 

Numa sexta-feira ele chegou a casa e nada falou. Havia trazido comida da rua, uma a seu gosto, outro a gosto dela, tudo verdinho, que ela não quis. Vamos viajar próxima semana, Argentina, comprei as passagens hoje. Ela estranhou, mas se sentiu de alma lavada, aquilo era um pedido de desculpas, uma bandeira branca. Eram o casal da saúde, esses vão longe, diziam os conhecidos. Viajaram. 

A viagem foi uma segunda lua de mel, tudo na perfeição mais bela que há: a perfeição do acaso. Lugares lindos, flores, muita carne e verdura. Passeios de bicicleta, barquinhos, peladinhos, noites calientes. Mas foi no último dia antes da volta, que aconteceu. Ela o esperava no hotel para um último passeio quando ele entrou no quarto de disparou sete tiros contra ela, morte na hora, de ambos, ele suicidou. Ficaram apenas os jalecos de ambos sobre a cama, ela engomava, ninguém sabe porque ela levara aqueles jalecos na mala. Morreram os dois saudáveis, ele com vinte e oito anos, de boa postura, um corpo invejável, uma mira muito boa, músculos firmes ao segurar ferro, ela de vinte e três anos, com as medidas ótimas, saúde saindo pela cabeça, pelo nariz, pelos ouvidos, uma saúde perfurada.

Essa história que agora lhes contei em prosa foi também narrada por um poeta boêmio, que levou a vida em orgias, a dormir encolhido pelos cantos de parede, em qualquer calçada desregular, dado a bebidas, álcool, cigarros, maconha, mulheres e homens. Morreu o poeta com oitenta e dois anos, tendo visto muita coisa da vida – inclusive a Argentina, por duas vezes.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

O baile do menino-lebre

por Alex Costa - Facebook


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A Mateus Mesmo, atemporal. 


Certa vez me contaram a história de um menino que se transformava em lebre. Ele era negro, me disseram, mas era lebre. Vivia no quarto de um sobrado no interior seco de uma cidade. Passava o dia fugindo dos raios de sol que passam às frestas das janelas do quarto. Para fazer tempo o correr, o menino adquiriu o hábito de mudar os móveis do quarto de lugar, o fazia todos os dias, às vezes mais de uma vez e se sentia bem com isso, mudava. 

O menino quase nunca saia, quase nunca falava, morria de medo de se repetir, morria de medo de contatos, traumas de toques passados, quando ainda não era lebre. Quando ouvia barulho mais pungente vindo da rua se atrevia a colocar os olhos tímidos e sonsos pela veneziana empoeirada para espiar: às vezes era o carnaval e as pessoas fantasiadas, os gritos, as gargalhadas, as prostitutas e os negros que faziam algazarra na descida das ladeiras esburacadas; às vezes era a quadrilha vinda da quermesse, as meninas rodavam o vestido e os meninos tiravam os chapeis sincronizadamente. E o menino pensava: meu deus, pra quê essas fantasias, esses vestidos floridos, essa sincronia irritante, o que é tirar o chapéu, o que há debaixo deles? Havia algo que não casava naquilo tudo. Um menino chora. 

Transformava-se quando lhe ocorria fato específico: às vezes o menino tinha dias inteiros de pensamento-avenida, fluxo imenso e intenso. Ideias como que borbulhavam na sua mente, fotos, fatos, lembranças, cheiros, gostos, ondas de todos os passados deixavam para quebrar no mesmo dia, como que de propósito, o menino então se transformava. Era breve, piscava os olhos devido à dor de cabeça e quando abria novamente era lebre no mesmo quarto de antes, mas encolhido num canto de parede, trêmulo de medo. Nada mais se tem a fazer, resta esperar parar o tremor, esperar cair as lágrimas dos seus olhos de animal e se destransformar num sono leve. Tu sabes o peso que carrega alguém que está quase louca, quase morta?

O menino acorda, a cabeça ainda dói. Por um lado, sente-se aliviado, passou o ruim; por outro, sabe que a qualquer hora volta, basta passar novo carnaval, novas máscaras, novas algazarras nesse país que tem mais gente que mosca. O menino se desespera. Corre, pega um livro na estante e a cabeça dói ainda mais. Novamente lebre, novamente chora, novamente animal e dorme. Acorda confuso, decide não mais esperar e põe em prática a arquitetura de um plano que havia prometido não arquitetar, mas o faz. O menino, que é humano, mas não é normal, afasta-se a um canto de parede e sobe em uma cadeira de madeira, a corda já posta.

Novamente barulheira lá em baixo, são eles que não deixaram o menino brincar carnaval, nem usar vestido florido, nem máscaras nem tintura no rosto. Não havia decisão a ser tomada: era o chapéu a ser tirado às damas ou nada. Não haveria de ser dama ele. Que escolhesse! Escolheu o quarto escuro do sobrado. Segurou firme a corda, pescoço envolto sem arrependimento e lágrimas de quem sabia que agora encontraria liberdade. O menino agora virava pássaro, cantava e voava alto. Quando o acharam [sete dias após o pulo derradeiro], por todo o seu corpo roxo estava escrito multicolor: “já não caibo em mim, já não caibo em mim”.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

O Negociante - Parte II

por Alex Costa - Facebook
coluna: Em cada canto um conto





          Não houve diálogo algum. Aquele cara parecia não se interessar por aquilo que não pudesse ser abreviado. De joelho, eu babava naquele pau rosa e raspado, enrolando na minha língua aquele cabeção inteiro e tentando sucumbir cada gota salgada da saliva que me escorria pelos cantos da boca, com a sede de um animal preso em uma selva aberta, mas vigiada por predadores armados e esperando um vacilo qualquer. Tomava fôlego vez por outra, quando ele soltava minha cabeça de suas mãos para esmurrar a parede. Cavalguei naquele pau melado, que parecia tão diferente dos outros; ele de braços abertos, mordendo o lábio inferior e segurando na minha cintura despida, tudo isso no meio daquele mijo, daquela lama podre, naquele piso imundo. Cansado, tentei beijar sua boca, e só então me lembrei de algo: uma transa das mais intensas que tive sem ao menos saber o nome daquele loiro, uma loucura!
- Baby, qual é mesmo teu nome? - sussurrei-lhe ao pé do ouvido, sem sair de cima da piroca.
- Desculpa, cara. Te conheço bem, sei bem mais que teu nome, tua vida, mas o meu fica só comigo – pareceu incomodado, como se quisesse parar a transa.
          O clima ficou um tanto tenso. Saí do seu colo, receoso por tê-lo constrangido, mas é que tamanho mistério começava a me intrigar e assustar. Vesti a calça, limpei a boca com as costas das mãos, enquanto ele puxava um cigarro preto do bolso da bermuda preta que vestia.
- Vou indo nessa, e desculpa ai a pergunta em hora tão inapropriada... Foder contigo foi bom. Te vejo em breve?
Ele pareceu, por um momento, que não iria responder.
- Foi nada não, apenas não curto quando há curiosidade sobre mim, acho até desnecessário. Tem um cu maravilhoso, apertadinho, bom de foder. Pareceu um virgem que comi no último carnaval, mas achei o teu ainda melhor. – soprava a fumaça na minha direção, enquanto alisava a cabeça do pau e retirava um excesso viscoso que havia ficado lá – Olha – continuou - não fique querendo saber quem sou, basta saber que hoje estou generoso, e resolvi te dar alguns anos a mais de foda para dar este cuzinho delicioso por aí.
           Mostrei-lhe um sorriso amarelado e saí balançando a cabeça para um lado e outro, achando que havia transado com um louco, lindo, mas completamente louco. Saí do box. Ao passar pela porta, cruzei com Cleonor, colega de curso, que apenas tocou meu ombro e saudou-me com um “hey” arrotado, como fazem a maioria dos heterossexuais ao encontrarem um colega homo no mesmo banheiro. Nem bem atravessei o pátio e, antes de chegar ao bebedouro, escutei três tiros dentro do banheiro, o mesmo do qual eu acabara de sair. Todos correram para ver. De pernas bambas, imaginando milhões de coisas em frações de segundos, fui passando por um e outro, e deparei com aquela cena:

Cleonor estirado no chão, ao seu lado uma poça de sangue enfaticamente vermelho misturado à lama e ao mijo; e Lindomar, outro colega de curso, que há seis meses encontrava-se em tratamento por uma crise em alto grau de depressão, de arma de mão e gritando feito um enlouquecido, totalmente surtado, e que há duas horas estava escondido em um dos box’s e esperando o primeiro que entrasse naquele banheiro para mandar ao inferno.


Corri ao primeiro box, o da transa, mas não havia ninguém lá, pois, na verdade, disseram que nunca houve. 

segunda-feira, 11 de abril de 2016

O negociante - Parte I

por Alex Costa - Facebook



Ainda antes mesmo de passar pela porta, queimou minhas narinas o forte odor de mijo e lama. O piso, molhado e com marcas de chinelos e sapatos, estava uma amálgama preta e fétida. Uma vergonha aquilo ser o banheiro de uma universidade, trágico. Prendendo a respiração, entrei no primeiro box, que se encontrava desocupado e com a porta entreaberta. Alguém, vestido de preto, olhava-se no espelho, e pareceu virar o rosto na minha direção antes que eu fechasse a porta. Mania minha, passei o ferrolho antes de colocar o pau para fora da cueca, nunca se sabe. Não quis olhar para baixo enquanto mijava, apenas li uma frase que estava escrita na descarga e dizia: “não importa o quanto balance: o último pingo sempre cai na cueca”. Sorri, dei duas rápidas repuxadas e balancei o pau, tentando burlar o sistema e evitar o derradeiro me melar a cueca.
Virei-me para a porta e coloquei a mão no ferrolho lisinho, quando percebi a sombra de pés na entrada do box. O coração acelerou e as mãos começaram a tremer quase que instantaneamente. Abri a porta vagarosamente, receoso, mas não havia ninguém me observando, apenas o mesmo rapaz loiro e belo, vestido de preto, que me olhava fixamente, mas sem sorrir. Dei-lhe um rápido aceno com a cabeça e ele tornou a olhar-se no espelho:
- Espero que não saia antes de apertar minha mão – sua voz parecia suave e tímida.
- Desculpe-me, mas me conhece de onde? -questionei.
- Não, não. Geralmente quem me conhece não se lembra de mim, prefere calar-se e dizer que nada aconteceu.

O clima parecia tenso, mas algo naquele cara me encantava absurdamente.
Ele deu alguns passos na minha direção, e, ao chegar à minha frente, olhou-me no fundo dos olhos e foi descendo a vista vagarosamente, até fixá-la com ferocidade no meu cacete, que agora estava duro e pulsante sem que eu houvesse percebido tal feito. Sem o mínimo receio, segurou forte minhas bolas entre seus dedos. Um nó se fez na minha garganta, e desceu rasgando e levando minhas forças, que àquele instante pareciam ter se esvaído do meu corpo, imóvel, deixando-me incapaz de esboçar reação alguma. Ele deu um breve sorriso furtivo, de canto de boca, soltou meu pau, duro feito pedra, e entrou no box do qual eu acabara de sair – deixou a porta entreaberta. Nervoso, olhei para a saída, que estava logo à minha esquerda,e novamente para a porta do box, decidi aventurar-me. Abri devagar a porta do box e lá estava ele, sentado no vaso sanitário, de braços cruzados e vinte e dois centímetros de cacete à minha espera, tranquei a porta.

[...]

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

À Margarida

por Alex Costa - Facebook



A Jhonny Paiva, que busca o lado doce da vida.

Central do Brasil, 28 de janeiro de 1998.

Guida,

Tô escrevendo pra dizer que volto. Antes da semana santa, se Deus ajudar e Nossa Senhora quiser, eu volto. Por aqui tá tudo bem. Uma sorte danada eu tive, Guida! Eu, roceiro sem estudo, sem ler nem escrever, arranjar servição que nem esse que compadre Plínio arranjou pra mim... só com a ajuda de Deus mesmo, Guida. A gente tem é que agradecer por tudo, Guida, agradecido demais até por ter encontrado Dona Dora aqui na Central do Brasil, ela quem escreve carta pra quase todo mundo, uma santa mulher, Dona Dora. Fui falar com o homem semana agora que se passou, um sujeitão o doutor Paulo. O homem sabe tratar a gente, foi logo mandando sentar, abriu logo um riso, o homem sabe tratar a gente, Guida. Quis saber quantos anos eu tinha, quase arriou da cadeira quando eu disse que tinha dezessete, mas já tava dentro dos dezoito. Doutor Paulo se admirou, disse que me dava mais que isso, perguntou o que era que eu fazia aí pra conseguir essas lapas de braços! Ora, pensei até que ele tivesse de prosa, mas disse a ele que era nos serviços, nos roçados alheios, com sol ou chuva, brocando, arando, apanhando grão. Eles aqui gostam de homem forçudo que nem eu, acho que o homem foi mesmo com a minha cara, Guida. Não sei como doutor Paulo soube que eu gosto de um pinga de quando em vez, dia desses me chamou pra beber alguma coisa depois do serviço, eu neguei na hora, nunca gostei de beber com patrão não, que depois que o sangue tá quente a gente gosta de falar umas merda [com licença da palavra] que se arrepende depois, e Deus o livre de chatear o homem, que o homem me tem um apreço grande, Guida. Aqui na firma tem uns invejosos, desse povo que trabalha comigo, ficavam tudo soltando piada comigo, mas eu não dei confiança e eles pararam. Ora, se eu tenho nada a ver que o homem gosta de cabra trabalhador, faço meu serviço direito e pronto. Na sexta agora ele chamou de novo, mas foi pra ajeitar umas coisas na casa dele, daí eu não podia negar, né!? Mas a casa dele nem é casa mesmo, é uma casa atrepada em cima umas das outras, quero que tu veja: sem telha, só gesso. Espaçosa, a casa do doutor Paulo. Uns quadros esquisitos na parede, uma mesa bem grande cheia de bebida dos estrangeiros, eu morto de vergonha, Guida. Mora sozinho doutor Paulo. Disse que se separou da mulher. Perguntei um dia desses sobre a antiga mulher do doutor e o pessoal da firma deu risada, fiquei sem entender, mas são uns bestas aquele povo. Mandou eu ficar à vontade, disse que se tivesse com calor não se acanhasse, podia tirar a blusa, o homem é simples demais, só tu vendo, Guida. Como o calor tava danado, só desabotoei e deixei mais aberta pra correr vento, aqui às vezes é quente como o diabo! Perguntou se eu queria tomar um banho, eu nem queria, mas tava calor demais e eu fui, todo acanhado, mas fui. Doutor Paulo foi me deixar uma toalha florida, abriu a porta do banheiro que eu tomei foi um susto! Botou uma dose de amarela pra mim, me ofereceu e insistiu tanto que eu achei uma falta de respeito não aceitar. A bicha desceu rasgando tudo, mas pense num negócio bom! Doutor Paulo até riu da careta que eu fiz, eu ri também. Ele pediu licença pra ir tomar o banho dele, demorou tanto que achei que não fosse mais voltar, mas me deixou à vontade pra botar mais amarelinha, doutor Paulo deixa a gente livre mesmo pra beber, o homem tem um bem-querer comigo, Guida. Patrão igual ao doutor Paulo num tem mais em lugar nenhum do mundo, tem nem do que duvidar! Bebemos que só eu te escrevendo outra carta, e eu nem sabia que doutor Paulo era dado a beber, nem sabia que esses homens de negócios bebiam feito roceiro. Acabamos perdendo a hora, a sorte que outro dia era folga da piãozada, não me aperrei tanto. Pois tu me acredita que o homem queria que dormisse lá, na casa dele!? O homem se preocupou de eu não voltar sozinho pra casa, Guida. Mas ele gostou mesmo foi dos meus braços, o homem tava admirado demais, mas é porque aqui só tem esses cabras moles, que não sabem o que é capinar um lote nem brocar um roçado. Mas aí eu não aceitei dormir não, Guida. Era abusar da bondade do doutor, mesmo ele tendo insistido muito, segurou meu braço com força pra eu não ir, mas eu disse que não podia mesmo ficar. Acho que ele não gostou muito e, tu sabe, eu até me arrependi depois de não ter ficado! Doutor Paulo é um homem que faz de um tudo por mim, num posso tá rejeitando pedido do homem assim não, ele tem uma simpatia por mim, Guida. Agora vou me despedindo aqui, meu bem, talvez na semana santa eu volte, Guida, se Deus quiser e Nossa Senhora ajudar, talvez eu volte.  

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Canibal

por Alex Costa - Facebook
coluna: Em cada canto um conto



A Gabriel Oliveira, pelas manhãs antropofágicas.
   
          Era madrugada e nós caminhávamos pela mesma avenida escura e fria de outrora. Uns bichanos arrastavam o pelo eriçado pelos muros pichados e, sendo gatos, vez ou outra saltavam sobre as latas de lixo e derrubavam suas tampas, notei que ele se assustava fácil. Quantas vezes, mesmo, eu fizera aquele trajeto? Nem lembro. Não sei exato quantos homens daquela cidade esborrotada e fétida conheceram àquela avenida por minha causa. Dobramos em uma viela mal iluminada, ele respirava forte. Conhecemo-nos não havia tanto tempo. Madrugada chuvosa, em uma boate de um bairro próximo dali, sexta-feira. Subimos em uma escada externa e carcomida de ferrugem que dava acesso a um quarto – do qual eu tinha a chave aos finais de semana. Pedi que subisse à minha frente, era uma paisagem incrível as costas largas e o macacão ainda sujo de graxa daquele menino. 
        O local era pequeno, mas aconchegante. É incrivelmente doce e engraçado o nervosismo alheio. Quando se está, nega-se, mesmo com as mãos em pandeiros vivos, respiração pesada e sorrisos desleixados; ao menos esses são meus sintomas de nervosismo, embora sejam raríssimas as situações que, particularmente, me deixam trêmulo. Gostaria de dizer coisas sobre toda uma noite, noite inteira, mas foi tudo tão breve quanto se poderia imaginar – embora tudo seja tão vago quanto nada. Meia luz iluminava o quarto abafado e logo percebi que ele evitava me olhar, o que era totalmente compreensível naquela situação. Tudo já estava acertado, tudo estava sabido sobre os desejos, os olhares, cada gesto e movimento futuro, de tudo ele estava ciente. Comecei por despir-me na tentativa de encorajá-lo, mas ele só começou o processo de nudez quando eu já me encontrava completamente pelado, de costas para que ele não visse igualdade em nós – tornaria tudo ainda mais difícil.
          Senti seu corpo juvenil deitar-se sobre aquela cama pela primeira vez, cama já conhecida de outras carnes, que rangeu um tanto, vagarosamente virando-me para conhecer o corpo, antes conceito metafísico, agora materializado ao meu dispor. Não sei se me lês, não sei se o nervosismo, em excesso, alterou algo na tua sudorese, mas preciso confessar-te que foi lambendo teu corpo que descobri que o sal, às vezes, pode ser doce. Quase toda a relação foi tangida por leves suspiros e delicadeza quando necessária; intensos momentos de unhas cravadas na pele, gemidos abafados, gritinhos histéricos – baixinhos. Tu suavas, encharcou lençóis e, mais pelo final, espremia-se todo pelo meu corpo, cavalgava forte, relinchavas, animalizou-se no conhecer do meu corpo, ao qual tu te adaptaras ligeiro, muito mais do que imaginei. Terminamos. Respiração mais leve, como eu imaginei tu não demorou a banhar-se, vestir-se, sabia mesmo que tu desejarias ir embora antes mesmo do primeiro cigarro – digo, meu cigarro, pois tu não fumas. As primeiras vezes são assim, cerceadas de uma timidez que, luta vã, tento desfazer: é já de praxe e até gosto. Tentei te tocar, mas tu parecias fugidio a qualquer toque meu, tu parecias meio triste.

          Caminhou novamente ao banheiro, demorou-se um pouco. Na volta trouxe um olhar apreensivo para mim, só então entendi. “Oh, meu bem, ai está o prometido sobre a televisão, é por isso que ainda espera?” – não sabia que ele não tinha visto. Ele, menino bobo, olhou para o dinheiro onde havia apontado e me olhou novamente, meio sorriso aberto. “Não dizes nada? Nem mesmo um beijinho molhadinho eu mereço, meu anjinho?” – fiz biquinho. Ele, terminando de abotoar a camisa, veio em minha direção e grudou os lábios secos dele nos meus recém umedecidos. “Valeu mesmo, sério...” – ele disse, antes de cruzar a porta de descer às escadas, sorriso mais aberto. Sorri também, aquela vez tinha sido diferente, ficou somente a certeza de que há mais de mil formas de persuadir os corpos, os homens, as gentes; certeza minha, eu canibal.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Breu

por Alex Costa - Facebook
coluna: Em cada canto um conto


A quem não era. Tornou-se.


Eu lembro que as luzes dos postes não iluminavam tudo, pois tu caminhavas furtivo pelo escuro e esquivava-se no breu. Era uma escuridão densa e eu amiudava os olhos na tentativa de te enxergar, mas de nada adiantava, tu estavas imperceptível. Quase não acreditei quando me vi cerceado pelo teu relinchar, alazão bravo, cortando a noite - também negra. Meu corpo quis esmorecer, como querendo entregar-se às tuas primeiras palavras. Um pânico se apossou de mim e eu te quis tocar, mas tu corrias sem cabresto. Tentei montar em ti, mas por ambos os lados eu escorregava sob teu pelo macio, tu que ainda corrias disparado. Houve durante o breu outras vozes, cabelos áureos e também cavalgantes, representativas e mentirosas, que relinchavam liberdade quando estavam preso na mais pobre miséria psicológica. Novamente tu desapareceste no breu. Ficaram tuas pegadas, que eu decidi não seguir por medo, receio, pavor. O breu me ensinou coisas que nunca imaginei serem aprendíveis, pobre eu. Foi no escuro do breu, a exemplo, que eu descobri que há em uma lágrima, às vezes, duas. Por vezes senti aquele breu fazendo parte de mim; em outras, sentia que ele se dissipava e as luzes dos postes tornavam-se mais fortes – tudo engano. Não havia, na verdade, breu ao meu redor. Havia tu, cavalo negro e indomável, me cerceando e deixando a vida correr, relinchando sem pressa e deixando rolar o que não gira: minha paciência. Fechei os olhos e respirei fundo. Aos poucos fui esmorecendo, desistindo de te tocar, te subir, te montar, te lamber e te tentar. Descobri de forma avassaladora que, em outra verdade, não havia um breu externo: o breu estava dentro de mim e eu não sabia. 

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O menino que se transformava em água

por Alex Costa - Facebook
coluna: Em cada canto um conto


          Meu enorme erro foi te querer tocar com as mãos, ainda que elas estivessem limpas e despidas dos desejos da carne. Tu, que sempre te manifestaste tão líquido, fugidio de toda metáfora, escorregadio de todo verbo conjugado no imperativo, fugitivo de toda conversa séria, embora foste em todo o tempo carregado de sobriedade. Confesso que já tive vontade de te jogar em fogueira ardente para descobrir se és de verdade um rio que apaga ou se és somente córrego que estanca a depender da estação. Quis te jogar em fogueira por experiência própria, pois foi sendo queimado que descobri como é ser carvão.
          Eu sempre me vi estação estática, nunca ousei mudar. Das tuas margens escorria uma indiferença que cobria minha vegetação rasteira. Tuas águas eram profundas e mesmo eu te cerceando nunca me arrisquei entrar em ti. Tuas águas eram correntes, mas baldeadas: tu nunca me deixaste ver teu fundo. Havia uma contradição em ti da qual era complicado reclamar: tu foste o cavalheiro que sempre se apresentou de rosas em mãos, mas que maltratou sem saber. Em teu alazão branco tu cavalgaste nas tuas próprias margens, tu respingaste em mim umas gotas quentes que saltaram dos teus cascos: tu corrias sem cabrestos.

          Éramos dois corpos sentados em um banco de paus no meio de uma movimentada praça: eu era fogueira ardente e tu água que fervia passivamente, indiferença escorrendo liquefeita em sorrisos. Tu me deixaste sujar roupas, me fez chupar polegares e me fez conhecer metade do universo, suado, despido, agonizante e deitado em um colchão inflável! Levantei-me um quase moribundo; e tu, alazão bravio, contorcia-se na grama de plástico, antes leito. E tu se foste. E restei apenas eu como final de tarde, que é, segundo José, a tristeza do sol. 

domingo, 11 de outubro de 2015

Ao parceiro Dimas,

por Alex Costa - Facebook
coluna: Em cada canto um conto



Dimas,

De fato, meu parceiro, o mundo entrou em uma desacreditação terrível. Há um mal-estar terrível nas relações humanas e entre nós já não há uma busca - ainda que mínima - por entender o outro. Há um livro que permanece empoeirado, fechado ou aberto no capítulo 91. Somente agora percebo que não há mais remissão para o teu caso, tu foste condenado quando nem bem sabia, foste pregado em cruz ainda no berço.

Realmente não interessa a eles nenhuma parte do teu passado, mais confortável é o cruzar de braços, o lançar de pedras, o silêncio de uma voz que errou. As pedras. Lançam-te quase acertando nesta luz que está ao teu lado, que tantas pedradas evitou em vias. Tua mãe negra morta, pegue em adultério para te nutrir; tu órfão de pai vivo, moribundo dos vícios; teu perambular faminto nas feiras, manjar de frutas podres e o resto dos cães. Nada disso importa, por nada disso eles se interessam. Todos vestem a negra indumentária do julgamento.

Eles carregam em mãos um livro que dizem conhecer, dizem seguir um cara que tu bem conheces, o qual te afirmo, Dimas, nunca te decepcionará. Eles muito mal interpretam o livro, meu parceiro, este é o grande problema. E mesmo ele tendo dito com palavras e demonstrado com ações, ainda tão mal o interpretam. Se não fosse isso, nem tu nem ele, nem milhões de outros estariam pregados em cruzes nem amarrados em postes. Tu nem sabes, Dimas, mas haverá um tempo em que tu voltarás multifacetado, voltarás mulher, mendigo, prostituta, transexual, tu voltarás bruxa e te queimarão! “Atire a primeira pedra aquele que não carrega pecados”. A multidão abafa as vozes de quem aconselha. Tampam os ouvidos com o Livro fechado.

Tu fazes parte de um plano maior, Dimas. Tu foste criado para mostrar o amor imenso que Ele tem pelos mal compreendidos, pelos marginalizados. Ainda pouco ouviste dizer que “eles não sabem o que fazem”, pois bem acreditas que essas palavras cruzarão a eternidade e se aplicarão ao contemporâneo tão quanto este momento em que agora sofres nesta cruz. Tu não estás sozinho nesta cruz, meu parceiro, tu carregas a voz de todo um povo. Quando vieres negro séculos à frente, te amarrarão em uma estaca e te açoitarão por não teres alma, tu carrega metade do mundo no teu nome.

“Ama o teu próximo como a ti mesmo” foram as palavras liberadas para os povos, que entenderam tudo errado e hoje encheram seus corações de ódio e afirmam que o melhor bandido é aquele que está morto – para eles não há perdão, Dimas. Tuas dores já chegam ao final, meu parceiro, e tuas lágrimas, tu nem sabes, serão colhidas.

Avexa-te, meu parceiro! Para ti ainda há salvação, não te conforma em estar tão perto e permanecer tão longe! Eles te julgaram e crucificaram, mas “aos 45 do segundo, arrependido, salvo e perdoado” encontrarás tua remissão e entrarás de mãos dadas com Ele pelas ruas reluzentes, ouro e cristais estarão debaixo dos teus pés e sobre tua cabeça uma coroa forjada de forma simples, mas colocada sobre teus cabelos pelas mesmas mãos que fizeram o Universo. Não desperdiça um minuto sequer, chama por quem ainda pode te socorrer, grita e pede perdão por quem te pregou em paus, pois eles, coitados, estão longe de saber o que fazem – embora carreguem a verdade nas mãos e a preguem todos os domingos.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

A CARTA DO FILHO QUE SE FOI

por Alex Costa - Facebook
coluna: Em cada canto um conto

“Mamãe,
Foi me dado o direito de escrever uma carta – a derradeira – e eu não poderia dedicá-la a outra pessoa se não a que me carregou, ainda na sua quase adolescência, por nove meses, cuidou de mim incansavelmente por vinte e um anos e que agora, decerto, levará a saudade do filho pelos anos que lhe resta. Deus veio me visitar hoje, mãe. Disse que lá de cima assistiu a tudo, tudo que se passou desde que começaram meus conflitos, minhas crises mais terríveis, minhas noites mais mal dormidas e disse ainda que contou também cada lágrima que molhou meu travesseiro.
Chegou pedindo desculpas, mãe, desculpas por tudo o que os homens me fizeram, por todas as vezes que voltei para casa assustado com o fogo do inferno - caso eu não me ‘endireitasse’; desculpa por todos os julgamentos que exerceram sobre mim, por todas as pedras que me lançaram pelas vias que caminhei, por todos os dedos apontados no meio da minha enorme confusão juvenil. Deus não tem preconceito, mãe. O medo, mãe, o medo nunca me fez recuar frente ao pecado, o medo quando se mistura ao desejo carnal parece que cria uma vontade ainda maior pelo ato. O medo que me imputaram nunca me impediu de provar as bebidas que provei, deitar nas camas que deitei, fazer tudo que fiz. Eles nunca entenderam que necessário mesmo é que haja um encontro com o verdadeiro Amor, não um relacionamento construído a partir do medo.
Não é fácil, mãe, não é fácil lutar contra aquilo que está dentro de nós há tanto tempo e nós não compreendemos. Procuramos uma resposta, uma saída, uma válvula de escape – mas não há. O que há, se bem repararmos, é um desentendimento mútuo entre os conselhos que nos dão e a realidade que nos cerca. Deus estava a me observar esse tempo todo, mãe, e também chorou quando eu chorei, chorou quando eu falhei, chorou quando ocupei lugares imundos e deixei tocarem no meu corpo, chorou quando eu disse não a Ele. Deus chora, mãe.
Ele é tão simples, tão manso, nem parece com os homens que tão mal O interpretam. Deitei minha cabeça em Seu colo, senti tudo ao meu redor ganhar vida, senti meu coração bater mais forte e uma vontade imensa de rir, Ele riu comigo. Deus é simpático, mãe. Ele afagou meus cabelos e disse: “filho, onde te dói?”, e eu quis olhar para Ele, meio espantado, pois, sendo Deus, Ele não deveria já saber onde doía? Mas Ele passou a mão sobre o meu peito e eu senti conforto, e Ele pediu: “fala com tua boca, filho, quero mesmo é ouvir tua voz”. Deus é sensível, mãe. Contei para Ele tudo que fiz de errado na vida e, mesmo sabendo de cada detalhe do que eu narrava, ouviu tudo em silêncio. Eu nunca me senti tão íntimo de alguém em toda a minha vida.
Eu nunca entendi porque Deus permite tanta mazela no mundo, mãe, tanta criança faminta, tantas famílias destruídas pelas drogas, tantos crimes terríveis, tanto ódio nos corações dos homens, tanta guerra e pouca paz; mas, será mesmo Deus que permite isso tudo ou o homem violento e sem temor que assim o prefere? A tarde era curta e eu sabia que não havia tempo o suficiente para tantas interrogações. Deus é bom, mãe.
Dizer que era errado apenas, mãe, nunca me convenceu de fato, embora eu sentisse que não queria aquilo fazendo parte de mim. Eu nunca pedi que me aceitassem como era, apenas que tentassem me ouvir, me compreender, nunca consegui. Tratavam o problema como algo muito simples, queriam oferecer-me uma fórmula, uma cura, e diziam: “é fácil, tão somente faz o que estamos dizendo, cara”, eles mesmos sabiam que não era assim.
Quando eu me lembrei de tudo, chorei. Quando me lembrei de todas as vezes em que chutei o pau da barraca e fui ao mundo, novamente ser escravo daquilo que se tornou meu vício e nem sequer me dava mais prazer. Ele enxugou gentilmente minhas lágrimas, também chorava, e apenas disse: “eu estava no controle de tudo, filho”. Deus é mistério também, mãe. Ele ainda afagava meus cabelos, mas levantou-se e repousou minha cabeça no meu travesseiro. Ele foi até a janela e respirou fundo, olhou o horizonte que Ele mesmo criou, meu quarto parecia completamente outro, Deus estava ali. E as pessoas lá fora, será que viam a Deus?
Foi quando Ele se aproximou novamente, sentei-me à beirada da cama e Ele sentou ao meu lado. Pegou em minhas mãos, Seu toque foi tão suave! Deus toca na gente, mãe. “Deus, eu confesso que não suporto mais, o fardo é pesado, as tribulações são muitas e acho que não vou conseguir”, eu disse. “Nenhum fardo que te permito tu não podes suportar, filho. Talvez estejas cansado, compreendo”, Ele respondeu. Deus é compreensível, mãe. “Filho, entretanto, tenho um convite a te fazer hoje”, eu olhei para Ele quase sem ar, mãe, coração em ás de sair pela boca. “Fala, Senhor, estou te ouvindo”.
Ele sorriu, enxugou uns resquícios de lágrimas que ainda estavam em meus olhos e perguntou: “Queres vir comigo ainda hoje para junto de mim? Digo, morar comigo em minha morada?”, foi feito o convite. Pulei de alegria, mãe. Era Deus sorridente me convidando para estar junto a Ele por toda uma eternidade, aceitei sem delongas. Foi então quando Ele disse: “apressa-te, escreve à tua mãe que agora trabalha, mas escreve somente a ela, despede-te”. Enquanto eu escrevia esta carta, Deus apanhou minha bíblia que estava há tempos guardada na gavetinha da cômoda e começou a folheá-la. Deus leu minha bíblia, mãe.  Este é um presente de Deus à senhora, mãe, a possibilidade de uma despedida e um conforto, pois tanto pedi que Ele me concedeu o prazer de morar com Ele no céu, na luz.”

sábado, 11 de julho de 2015

O suicida

por Alex Costa
coluna: Em cada canto um conto


          Quando finalmente decidi, ainda hoje pela manhã, que tiraria minha própria vida, decidi em paralelo que não me acovardaria. Mas o que faria, mesmo, antes? Foi quando pensei em telefonar a um amigo, contar-lhe sobre a corda que agora vejo pendurada no caibro mais alto desse quarto sem graça. Como ele mora perto, decidi não arriscar, pois ele chegaria depressa e correria o risco fatal de salvar minha vida: ser salvo é o que eu menos preciso neste momento. Foi quando, em segundo plano, decidi que tinha o dia todo para morrer, e, embora sombria, sabemos que a Morte não escolhe hora marcada para os que desejam deitar-se em seus braços magros e ossudos no ápice da juventude – assim suponho.
          Decidi, então, às nove e meia da manhã, que escreveria uma série de cartas para aqueles que eu imaginava que iriam chorar sobre meu caixão de luxo, no qual minha mãe - perua como ela só - faria questão de me enterrar. Ah, minha mãe. Juro que se fechar os olhos neste exato momento consigo vê-la, de vestido preto, com um enorme decote [que, decerto, quase chega ao umbigo], fingindo enxugar os olhos cagados de maquiagem preta com um lenço bordado, a alisar meus cabelos loiros e lisos, coloridos pelo sol das praias cearenses.
          Sobre as cartas, escrevi dezessete. Enderecei-as às minhas mais intensas relações, sendo três delas a inimigos [que um dia chamei amigos]. Deixei com a missão de entrega-las o amigo Jorge Xavier, um fato cômico, tendo em vista que Jorge passou no último concurso dos Correios e trabalha como carteiro, e odeia sua profissão: fica, então, como última gozação com esse sacana que pega todas as madames ricas e solitárias as quais lhe oferecem chá da tarde no vai e vem das cartas e envelopes. Ah, Jorge... o garanhão do “Clube da Prancha”. Mal sabem as menininhas onde Jorge coloca aquela boquinha de lábios suculentos antes de beija-las, o que espirram em sua carinha de barba por fazer – eu que o diga. Mas Jorge [ou Jorgeco, para o macharal do Clube da Prancha] não terá o trabalho de entregar todas essas cartas, pois queimei-as todas.
          Troquei todas essas cartas por este papel no qual agora escrevo, somente esta lauda que me faz suficiente para despedida. Deixo-lhes o motivo da minha ida que, decerto, logo dirão que foi precoce: aos vinte e um anos de idade, a vida não tem mais a mínima graça e enjoei do mundo faz tempo. Estou disposto e decidido a escrever minhas últimas duas linhas; eu, que gostei tanto de escrever, tão amante das entrelinhas, e por isso ofereço-lhes o penúltimo ponto final. A última linha reservo para descrever somente a brisa suave e gélida que agora entra pela janela aberta do meu quarto, fazendo a corda balançar num ritmo bamboleante, hipnotizante, tão convidativo que me apresso em colocar aqui o último ponto final [em mais de um sentido] em mais de uma dor.