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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

A Rainha da Neve

Coluna Textos Curingas


Hans Christian Andersen


Era uma vez, uma linda fada, a Rainha da neve. Ela vivia nos picos mais altos e mais solitários dos alpes. Os moradores das montanhas próximas e os humildes pastores que se atreviam a subir e admirá-la não resistiam à sua beleza e facilmente se apaixonavam pela rainha. Infelizmente, havia sido dito que nenhum mortal jamais poderia se casar com a bela fada e, da mesma forma, ela não poderia se apaixonar por ninguém ou então uma grande desgraça cairia sobre todos os povos e criaturas das montanhas.

Mesmo que algo ruim pudesse acontecer, ainda existiam homens dispostos a tentar conquistar o coração da rainha. Em uma das vezes, um dos tão corajosos homens da vila se atreveu a subir por toda a montanha e entrar no palácio. Ao chegar, se ajoelhou a frente da rainha pedindo sua mão e no mesmo momento ela ordenou que milhares de  seus fieis goblins agarrassem o homem. Depois disso, eles o empurraram em direção às rochas que ficavam no fundo do abismo, enquanto a rainha assistia aquela cena sem emoção alguma. Curioso o fato de que a rainha não era uma criatura cruel, na verdade, seu coração congelado era incapaz de sentir qualquer coisa. 

Sua lenda saiu das montanhas próximas e alcançou um pequeno vilarejo mais distante onde um caçador ficou encantado pela ideia de um grande palácio de gelo e sua rainha. Fascinado, ele decidiu tentar a sorte. Deixou seu vale, viajou dias e escalou montanhas desafiando o pior dos invernos de sua vida. 

Toda vez que pensava em desistir, se deixava levar pelo pensamento adorável da rainha e isso lhe dava forças para continuar a escalada. Finalmente, depois de mais alguns dias ele finalmente viu as transparentes e altas torres do palácio. Quando alcançou sua entrada, juntou toda sua coragem e adentrou a sala do trono. Ele ficou não encantado pela beleza da rainha que não conseguiu pronunciar uma palavra. Tímido, ele apenas se ajoelhou e continuou a admirá-la. Já que o homem não havia a pedido em casamento, a rainha não chamou seus goblins, e passou, da mesma forma que ele, a admirá-lo. 

Para sua surpresa, uma sensação estranha tomou conta de seu congelado coração e percebeu que estava começando a gostar do tão jovem e belo caçador. O tempo passou e ao que parecia ela se sentia cada vez mais apaixonada pelo homem, entretanto, não se atrevia a admitir, nem mesmo para si mesma, que era com ele com quem ela gostaria de se casar.

Os goblins, que sempre vigiavam sua amada rainha, começaram a se preocupar. E se ela se casasse? Que coisa horrível o destino havia preparado para esse momento? Preferiram não arriscar e ajudar a rainha a se decidir. Em certa noite eles se uniram e foram aos aposentos do jovem caçador. Fizeram uma roda ao seu redor e depois de desacordado, carregaram ele até a beira do abismo, atirando-a às rochas. A rainha, dessa vez, assistiu a cena da janela, mas não havia nada que pudesse fazer agora. Ela então saiu no frio daquela noite, e se debruçou sobre a beira do abismo, ao ver o corpo do homem que amava, seu coração gelado se derreteu e uma lágrima caiu de seus olhos. 

Quando a gota alcançou a pedra, um pequeno broto começou a crescer parecido com uma estrela, até que finalmente se tornou uma bela flor. Essa pequena plantinha tem o nome de Eldevais, uma flor branca que costuma crescer apenas nos mais altos e inacessíveis alpes, bem a beira do abismo.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Como construir um mundo ficcional - Kate Messner

Coluna Textos Curingas


(Se a legenda não aparecer, ative-a no primeiro botão do canto inferior direito)


domingo, 25 de outubro de 2015

Venes Caitano - quadrinhos literários

Coluna Textos Curingas


Venes é uma grata surpresa! Conheci-o ao acaso, falando de um assunto que muito nos interessa: a literatura. Depois descobri que ele desenha bem mais sobre isso e sobre outras coisas também. Ele é um quadrinistas daqueles de mão cheia, vale a pena conhecer seu trabalho. Segue alguns que separei e mais no final divulgo seu site e seu twitter.





segunda-feira, 5 de outubro de 2015

sábado, 19 de setembro de 2015

Moça Linda Bem Tratada

Coluna Textos Curingas




Moça linda bem tratada,
Três séculos de família,
Burra como uma porta:
Um amor.

Grã-fino do despudor,
Esporte, ignorância e sexo,
Burro como uma porta:
Um coió.

Mulher gordaça, filó,
De ouro por todos os poros
Burra como uma porta:
Paciência...

Plutocrata sem consciência,
Nada porta, terremoto
Que a porta do pobre arromba:
Uma bomba.

Mário de Andrade

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

HERÓI. MORTO. NÓS.

Coluna Textos Curingas


A crônica abaixo é uma das mais importantes da literatura brasileira. Forte e didática, contextualizada e atemporal, linguagem direta e mensagem profunda. Lourenço Diaféria, jornalista, contista e cronista, publicou-a durante a Ditadura Militar e sofreu com isso. Os militares não gostaram do que leram e resolveram que era melhor prendê-lo em seu ambiente de trabalho. Deve ser algo como "para vocês aprenderem a lição". A Folha, solidária ao jornalista preso, deixou seu espaço em branco, afinal, aquele cantinho do jornal tinha dono e o dono, este era corajoso.


[Crônica publicada em 1º de setembro de 1977]
Neste texto foi mantida a grafia original da época.


Lourenço Diaféria 

Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos. 

O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra. 

Que nome devo dar a esse homem? 

Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor. 

Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo. Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói - como o santo - é aquele que vive sua vida até as últimas consequências. 

O herói redime a humanidade à deriva. 

Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão, major. 

Está morto. 

Um belíssimo sargento morto. 

E todavia. 

Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias. 

O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel - onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer - oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar. 

O povo quer o herói sargento que seja como ele: povo. Um sargento que dê as mãos aos filhos e à mulher, e passeie incógnito e desfardado, sem divisas, entre seus irmãos. 

No instante em que o sargento - apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher - salta no fosso das simpáticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que não era seu, ele está ensinando a este país, de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro de todos. 

Esse sargento não é do grupo do cambalacho. 

Esse sargento não pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidadão deve ser civil ou militar. Duvido, e faço pouco, que esse pobre sargento morto fez revoluções de bar, na base do uísque e da farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira página dos jornais. 

É apenas um homem que - como disse quando pressentiu as suas últimas quarenta e oito horas, quando pressentiu o roteiro de sua última viagem - não podia permanecer insensível diante de uma criança sem defesa. 

O povo prefere esses heróis: de carne e sangue. 

Mas, como sempre, o herói é reconhecido depois, muito depois. Tarde demais. 

É isso, sargento: nestes tempos cruéis e embotados, a gente não teve o instante de te reconhecer entre o povo. A gente não distinguiu teu rosto na multidão. Éramos irmãos, e só descobrimos isso agora, quando o sangue verte, e quanto te enterramos. O herói e o santo é o que derrama seu sangue. Esse é o preço que deles cobramos. 

Podíamos ter estendido nossas mãos e te arrancando do fosso das ariranhas -como você tirou o menino de catorze anos - mas queríamos que alguém fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar. 

Sempre é assim: o herói e o santo é o que estende as mãos. 

E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis -tarde demais. 

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O aumento

Coluna Textos Curingas


Dino Buzzati


Quando ficou sabendo que seu jovem colega Bossi, a mais recente admissão da firma, ganhava mais de vinte mil liras por mês do que ele, Giovanni Battistela viu-se tomado de uma raiva espantosa. E teve uma coragem do que em condições normais lhe pareceria uma loucura: de fazer-se receber pelo diretor e dizer-lhe poucas e boas. E ei-lo que se apresenta no solene escritório em cujo fundo estava sentado o chefe.

— Por favor, por favor. Pode se aproximar...
— Queria me desculpar, senhor comendador, mas...
— Desculpar por quê? Não me fale em se desculpar. Não faltava mais nada, meu caro Battistela. Eu é que devo lhe agradecer por ter vindo.
— O senhor!?
— Eu, sim. E estou contente, contentíssimo em revê-lo. Mas por favor, sente-se, sim, porque as pessoas que nos são caras, em quem temos mais confiança, são precisamente aquelas que mais negligenciamos. Esta é a cruel lei da vida, não é mesmo? Diga, diga, meu caro Battistela, há quanto tempo não trocamos duas palavras em santa paz? Semanas, não é mesmo? Semanas o quê! Meses, talvez. Muitos meses. Eu mesmo não me surpreenderia se, em vez de meses, fossem anos...
— Faz exatamente dois anos e meio...
— Dois anos e meio! Mas acredite, meu caro Battistela, que durante esses dois anos e meio, todas as noites — sabe disso? —, na hora em que fazemos nosso exame de consciência eu pensava sempre no senhor. Todas as noites antes de dormir, comigo mesmo: "E Battistela? E o excelente Battistela? Não estás te esquecendo dele?” Era o que eu mesmo me dizia: “Quando irás te decidir a lhe dar o cargo que ele merece? Um trabalhador como ele, uma coluna mestra da administração, um homem hoje cada vez mais raros..." Assim falava eu, e todas as noites sentia remorso, pode acreditar.
— Pois então, senhor comendador...
— Estou disposto a ajudá-lo, não era isso que ia me perguntar? Ah, não me diga nada. Acha que eu não o compreendo? Que eu não tenho o condão de captar o seu pensamento? Palavra por palavra, poderei lhe repetir tudo quanto intenção de me dizer... Que existe quem, com muito menos títulos, está ganhando mais do que o senhor, que isso é uma injustiça, que o senhor perdeu a paciência e não é isso mesmo?
— É, realmente...
— E o senhor, meu caro Battistela, teve um ímpeto de exasperação, não é de? Quem não teria tido, não é mesmo? A injustiça consegue transformar cri mansas e humildes em verdadeiros tigres, não é mesmo?
— Bem, em suma...
— Está vendo? E o senhor pensava que eu não compreenderia, que sabia, que eu não me interessava. Homem de pouquíssima fé!... Bem, este deve belo dia para nós. Esta noite ambos estaremos satisfeitos um com o outro. Que de 150?
— Como?
— Creio que agora o senhor ganha entre 95 e 98, se não me engano, não?
— 97.
— Bem. Podemos dar um passo adiante. Um pequeno passo. Cento e cinquenta. Não chega?
— Bem, confesso que não esperava...
— Está vendo? Não sou mais aquele dragão, aquele carniceiro, aquele devorador de cristãos, aquele lobo esfomeado — não é isso que dizem de mim?
— Eu... eu lhe agradeço.
— Não tem nada que me agradecer. Eu é que lhe agradeço pelo seu trabalho... Um cigarro?
— Obrigado, não fumo...
— Bravo, é mais uma virtude... Quanto a mim, fumo como um desesperado... Bem, bem, quer me parecer que ficou tudo resolvido...
— Bem, quer dizer, não quero mais tirar o seu tempo...
— Não sou eu que vou retê-lo, meu caro Battistela. E faço os melhores votos para que... — suspirou. — É pena!
— "É pena", por quê?
— Nada, nada... Eu... para você... eu tinha outros projetos. Mas agora é inútil. O que está feito, está feito.
— Outros projetos?
— Sim, projetos, que eu fazia... Mas, agora...
— Comendador, não quer fazer a gentileza de me dizer...?
— Não, eu te conheço. Aquilo que se faz para o seu bem, o senhor leva a mal... 
— Isso não é verdade...
— Seria como lhe dar uma prova de confiança, uma demonstração de amizade. Seria. Mas compreendo que poderia lhe dar uma impressão esquisita...
— Esquisita como?
— Além do mais é um assunto... é um assunto extremamente reservado...
— Não confia em mim?

O diretor levantou-se devagar, atravessou o escritório com ar circunspecto, fechou a porta com a chave, parou como se escutasse a passagem de alguém lá fora, avizinhou o indicador dos lábios num gesto de silêncio, voltou à escrivaninha e começou a falar em voz baixa: 

— Battistela... me escuta... Eu estou ficando velho...
— Não é verdade.
— Velho, sim. 0 coração às vezes anda falhando. De um dia para o outro...
— Não diga isso nem brincando...
— E onde? Aqui mesmo, nesta escrivaninha? No meu posto, quem sabe? Mas escuta, Battistela...
— Estou ouvindo.
— Recomendo que guarde isso só para você. Porque em você eu confio... De algum tempo para cá fala-se em grandes mudanças...
— Mudanças?
— Com certeza já deve ter ouvido falar, pelo menos por alto: mudança de proprietários, segundo se diz, passando a firma para as mãos de outro grupo financeiro. E sabe o que isso significa?
— Que os chefes atuais vão-se embora e outros virão.
— E isso não lhe diz mais nada? Não compreende o que pode acontecer em tais circunstâncias?
— Não faço a menor ideia...
— Podem vir medidas de contenção de despesas. Porque se esta mudança ocorrer, o motivo é um só: é que as coisas não vão bem, que a crise está sendo sentida também por nós. Razão, portanto, para que a preocupação dos novos donos seja, sem dúvida, a de poupar ao máximo. E de que maneira? É simplicíssimo. Sabe o que se faz, nestes casos?
— Não. O quê?
— Redimensionamento. Bela palavra, não é? Redimensionamento. Sabe o que ela significa? Significa desembaraçar-se do peso excessivo, eis a solução genial. Elimina-se a escória. Aperta-se o cinto. Passa-se uma vista d'olhos na folha de pagamento. E quem tem alta remuneração, zapt! Estes são os primeiros a se fritarem. Como em todos os casos, são só os peixes miúdos que se salvam. E então, quer que eu fique contente com a ideia de ver liquidado um como o senhor? 0 meu dever, neste caso, uma vez que tenho um peso na consciência é o de alertá-lo, meu caro Battistela. Não só o de alertá-lo, como o de ajudá-lo nessa possível ameaça.
— Evitar?
— Claro. Quero subtraí-lo à dizimação, mimetizá-lo, colocá-lo num posição segura. Mas é inútil. Os senhores, os jovens, não se dão conta de que...
— Ao contrário. Pode dizer, comendador, pode dizer...
— Quer que eu lhe fale com o coração nas mãos? Como se o senhor fosse o meu próprio filho? Bem... se eu fosse o senhor, frente a uma conjectura desta, sabe que coisa...
— Que coisa o senhor faria?
— É fácil compreender. A moral da história é a seguinte: melhorando a sua situação financeira, no fundo eu lhe prestei um péssimo serviço. Foi a mesma coisa que se eu o atirasse na rua, para falar tipo pão-pão, queijo-queijo...
— De maneira que eu...
— Caro Battistela, não quero que amanhã venha a ter motivos para me recriminar. Se amanhã o senhor vier a me perguntar: mas, comendador, por que não me avisou antes? Por que não me abriu os olhos? Meu querido, as coisas estão a um ponto tal que, mude-se ou não de patrões, um dia eu me verei constrangido a adotar medidas severas. E por que haverá de ser com o seu sacrifício?
— Mas, eu... Bem, não estou compreendendo... Está me falando de aumento? Acha que é melhor eu esperar?
— Não, nada de esperar! Se prevenir, sim. 0 que fazem os soldados, quando os inimigos abrem fogo? Abaixam a cabeça, agacham-se no chão para não serem feridos. Agache-se também, Battistela.
— Agachar-me?
— Em sentido figurado, bem entendido. No momento, convém uma manobra, uma dissimulação, um subterfúgio estratégico. No momento, convém exagerar no seu zelo. Compreendeu, Battistela?
— Realmente...
— E depois, que importância teria para o senhor, que é solteiro, uma redução no salário? Se em vez de 97 fossem apenas 80, isso não causaria a morte de ninguém. Digo-lhe isso porque agora até os ordenados de 90 estão dando na vista. Mas em compensação... considere a segurança, a tranqüilidade, a certeza de não ir de encontro com nenhum desprazer.
— Redução de salário?
— Está vendo como eu não estava enganado? Como era melhor ter me calado? 0 senhor já está dando às minhas palavras uma interpretação negativa.
— 0 senhor disse oitenta mil?
— Setenta talvez fosse melhor, mas creio que oitenta será o suficiente...
— Mas comendador...
— Eu sabia. 0 senhor é um rapaz inteligente, pega as coisas no ar, toma decisões com rapidez... Pense agora se eu, em vez de lhe falar sobre isso, me calasse... O senhor teria lá o seu aumento. De cento e cinquenta mil por mês. Mas, e depois? Ia se meter em poucas e boas! Seria carregado pela primeira onda. Menos mal, menos mal que existe alguém que lhe quer bem...
— Quer dizer que acha mesmo que o aumento...?
— Não resta a menor dúvida, meu filho: seria o mesmo que estar com uma corda no pescoço.
— Bem, comendador, eu lhe agradeço. O senhor me poupou de um grande aborrecimento.
— Não precisa agradecer... Vá, volte contente, volte tranquilo para o seu trabalho. E, meu caro Battistela, saiba que o meu desgosto é apenas um: o de não poder fazer pelo senhor — eu lhe juro — um pouco mais do que fiz.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

O cachorro canibal





José J. Veiga

Percebia-se que era um cachorro por causa do rabo metido rente entre as pernas, quase colado na barriga, e também um pouco por causa dos olhos, de uma tristeza tão funda que só podiam ser olhos de cachorro escorraçado. As patas não se firmavam no chão como as de qualquer cachorro razoavelmente seguro de si; pisavam a medo, apalpando experimentando. (Depois se soube que ele tinha perdido os cascos pelos caminhos, ficando as plantas em carne viva.) De onde estaria vindo, ninguém se interessou em saber; ele apenas parou ali, lamentável e infeliz, muito cansado para continuar andando. Apareceu de manhã, e quem o viu deitado numa nesga de grama debaixo do jasmineiro pensou em um cão errante, igual a tantos que cruzam o mundo em todas as direções, parando e farejando mas sempre em marcha, como se incumbidos de alguma missão urgente, cujo endereço e propósito só eles sabem; nem valia a pena providenciar comida, provavelmente ele não estaria mais lá quando a comida chegasse.

Mas aquele parecia não ter pressa ou intenção de seguir, e lá ficou deitado de lado, não propriamente descansando porque as moscas não deixavam, mas fazendo o possível por conseguir algum sossego.

Via-se que estava faminto, mas o cansaço impressionava mais, talvez devido a seu litígio incessante contra as moscas. Às vezes ele parecia pensar que pudesse acomodar a cabeça entre as patas e deixar ao resto do corpo o trabalho de repelir os inimigos. O rabo não parava de açoitar o ar, e todo o pêlo tremia repuxado pelas contrações dos músculos; mas essa estratégia era logo descoberta e as moscas concentravam o ataque na cabeça e nas orelhas. Eram tantas e tão insistentes que ele não podia ignorá-las por muito tempo: bocava o ar indignado e às vezes até se levantava de um pulo para poder persegui-las melhor - mas a dor causada pelos talos de grama nas plantas desprotegidas advertia-o de que ele não estava em condições de ser muito enérgico.

Uma criança da casa viu-o ainda no mesmo lugar lá pelo meio da tarde e levou-lhe uns restos de comida. Ele estudou o menino com olhos desconfiados e concluiu que não havia perigo daquele lado. Comeu, lambeu o prato, balançou o rabo para mostrar que apreciara a gentileza. Deve ter passado a noite no mesmo lugar, mas ninguém ouviu latidos nem uivos. De manhãzinha chamaram-no para dentro e o menino deu-lhe um banho na torneira do pátio. Ele não resistiu nem criou dificuldades, era o primeiro a reconhecer a necessidade de limpeza, sabia que um cachorro limpo leva vantagem por onde anda.

Com o banho ele começou a levantar o rabo, primeiro por ter recuperado um pouco da dignidade, segundo por suspeitar que dentro de pouco haveria mais comida. Quando um cachorro errante é levado para dentro de uma casa e recebe o luxo de um banho, a seqüência lógica é um prato de comida.

Mas aí começa também a fase difícil das relações entre cão e gente. Como esperava, ele recebeu o seu almoço; e não tendo sido enxotado, interpretou a situação como significando que seria tolerado. Mas pode um cão contentar-se com a simples tolerância? Quando se sente apenas tolerado, um cão de respeito tem dois caminhos a seguir: ou exige atenção, ou vai embora para outro lugar onde possa se impor. A retirada é sempre humilhante, ele sabe que no momento em que vira as costas começou o esquecimento - isso se não acontece o pior - nem percebem que ele se foi; muito tempo depois é que alguém indaga distraidamente, "é verdade, que fim levou aquele cachorro que andava por aí?" Farejando o ambiente ele percebeu que podia escolher o primeiro caminho com grande probabilidade de êxito.

Para começar, era preciso não exagerar na gratidão. Se um cachorro mostra muita gratidão as pessoas podem pensar que ele não está habituado com bom trato e acabam relaxando nas atenções; nesse caso não há mais esperança para ele naquela casa. A melhor maneira de impor-lhes respeito é fazê-las pensar. Quando alguém pensa, "o que é que esse miserável julga que é? O Rei do Mundo?", o cachorro pode ficar descansado que o seu lugar está garantido. Em vez de se atirar aos pés da primeira pessoa que lhe estala os dedos, o cachorro ajuizado deve mostrar uma certa frieza. Só depois que a pessoa insistir é que ele deve atender, assim mesmo sem pressa. Se não houver insistência o cachorro nada terá a perder; pelo contrário, convém sempre desconfiar das que não insistem.

Aplicando todas as suas habilidades na fase difícil dos primeiros contatos ele conseguiu fazer-se notado e respeitado. Em pouco tempo já estava dormindo onde bem quisesse, sem receio de que o pisassem ou enxotassem. Esta é a grande prova de prestígio canino: não ser tocado do lugar que escolheu para deitar-se.

E gostaram tanto dele na casa que estragaram tudo com a solicitude de amaciar-lhe a vida. Vendo-o brincar sozinho no jardim alguém lembrou-se de arranjar-lhe um companheiro menor. Pensaram que assim ele ficaria mais feliz, e de fato ficou por algum tempo. Passava horas rolando com o menorzinho na grama, ensinando-o a viver e a ser respeitado, e quem os via embolados no chão pensava: "Que graça! Até parecem irmãos!" E como aprendia depressa aquele ladrãozinho malhado!". Em pouco tempo já estava passeando de colo, aliás uma lição que o maior não ensinou. Aproveitando-se da inocência do cãozinho as pessoas da casa conquistaram-no completamente, numa inversão ridícula de papéis. Dava engulhos ver a sofreguidão dele atendendo os chamados mais absurdos, a humildade na aceitação de censuras e castigos. Aquele estado de coisas não podia acabar bem. Mais dia menos dia...

A situação agravou-se quando começaram a tomar liberdades com o cão maior, decerto inspirados pela intimidade excessiva que mantinham com o outro. Já não o deixavam dormir onde quisesse, e não escondiam o desgosto de vê-lo dentro de casa. Ele ia suportando tudo com paciência, esperando que a loucura passasse.

Mas não há paciência que resista a abusos.

Ele estava dormindo de patas pra cima no canto de uma varanda ladrilhada, que nem era no meio ou na passagem, mas no canto, ninguém podia dizer que estivesse obstruindo. Mesmo assim alguém achou de encher a boca de água e vir de mansinho esguichá-la nele. Ora, isso assusta e aborrece. Num rápido movimento rolado ele ergueu-se e ficou parado sem compreender, mas a água escorrendo pelas pernas e a pessoa enxugando a boca e olhando com olhos maldosos diziam tudo. foi uma traição mesquinha, mas mesmo assim ele achou melhor não perder a compostura, não latiu nem fez escândalo. Retirou-se com relativa dignidade para a sombra do jasmineiro.

A ideia veio de repente, já como decisão. O ladrãozinho malhado tinha acabado de tomar banho e espojava-se ao sol a poucos metros de distância. O outro levantou-se da sombra, esticou as patas dianteiras ao comprido do corpo, como se fosse deitar-se noutra posição, mas era apenas para se espreguiçar; abriu a boca num bocejo enorme e caminhou para o pequenino. Quando esse, que estava deitado de costas dando coices para o ar, sentiu aquela pata pesada no peito, julgou tratar-se de alguma brincadeira e ainda rosnou de brinquedo. A primeira dentadas feriu-o na carne mole do ventre. Achando a brincadeira muito bruta ele decidiu retirar-se, rosnando e mordendo o outro no pescoço, mas o queixinho novo não tinha força para fazer mal, e o outro prosseguiu com seu projeto, começando pelas partes tenras, com certeza já de cálculo para não sair perdendo caso se fartasse antes ou tivesse que fugir por motivo de força maior. Mas ninguém veio acudir, aqueles dois viviam brigando e fazendo as pazes. Quando ele começou a enjoar só restavam os ossos mais duros e uma mancha de sangue na grama. Os ossos ele carregou para longe, escondeu, enterrou; o sangue ficou como enigma para as pessoas da casa.

Se ele pensava que ia ser feliz daí por diante, deve ter omitido em seus cálculos algum elemento muito importante; porque desde esse dia ele mudou completamente, a ponto de parecer outro cachorro. É claro que as pessoas da casa interpretavam a mudança como consequência da perda do companheiro (O que não deixava de ser) e combinaram ter paciência com ele.

Dava pena vê-lo de cabeça baixa, num ir e vir incessante, sem encontrar sossego em parte alguma. Mesmo quando parecia descansar, deitado de lado em um tapete, o bojo das costelas arfando compassado, o brilho do pelo ondulado com a respiração, podia-se ver que o repouso era aparente. Olhando bem, via-se que os músculos nunca estavam em completo descanso, havia neles uma constante trepidação, um zumbir de alta voltagem. Bastava um ruído distante, um leve toque, mesmo de uma penugem pousando, para ele saltar nas quatro patas, as orelhas armadas, os olhos furando o tempo - o que acontecia também sem nenhuma razão aparente.

Por uma misteriosa repulsão as pessoas passaram a evitá-lo, não lhe afagavam mais a cabeça, não lhe alisavam o pelo, ninguém lhe amarrotavam as orelhas para ouvi-lo ganir, o que é também uma forma de mostrar a um cão que se gosta dele. Agora  era só respeito, um respeito apreensivo. Às vezes ele se instalava numa passagem, parece que desejando que o maltratassem, que o enxotassem, que o humilhassem; mas o que se via era as pessoas tomarem trabalho para não incomodá-lo, se afastarem para lhe dar passagem. Não sabendo chorar ele procurava gastar a angústia caminhado sem parar, talvez na esperança de se cansar e cair de vez. E quanto mais se movimentava, mais dava a impressão de estar contido entre barras de uma jaula.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Untranslatable Words








A ilustradora inglesa Marija Tiurina fez uma coleção incrível, que tem a ilustração como arte e a palavra como matéria-prima. ‘Untranslatable Words’ é uma coleção de palavras intraduzíveis, que ela tentou traduzir nas artes visuais e o trabalho ficou incrível. Se traduzir tais palavras é utopia, ela chegou perto do seu objetivo.






 



Kyoikumama (Japonês)

Uma mãe que implacavelmente empurra seus filhos para o desempenho acadêmico.







 





Tretar (Sueco)


Por si só, "tar" significa "uma xícara de café" e "Patar" pedir um refil, tomar uma segunda xícara de café. Um "tretar" é um segundo refil ou "threefill".







 







Torschlusspanik (Alemão)


"Pânico da porta-fechando", ou o medo de diminuir as oportunidades com a idade.







 


 






Cafuné (Brasileiro)


O ato de ternura em que os dedos correm pelo cabelo de alguém.
 






Veja outras artes da coleção AQUI!

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Afinal, o que é uma Biblioteca?

 
 
Ou sobre a situação da Biblioteca Municipal de Fortaleza Dolor Barreira e a gestão de políticas públicas do livro, leitura e literatura na cidade de Fortaleza.


O que é uma Biblioteca? Respondendo sem rodeios, para a Prefeitura de Fortaleza é um depósito de Livros. A problemática não nasceu hoje, sempre tivemos uma dita Biblioteca Municipal que faz vergonha diante à imponência do nome “Biblioteca Municipal”, no caso a Dolor Barreira, que já teve como sede um prédio quase em ruínas e demorou bastante tempo para ganhar um endereço um pouco mais digno. As ruínas, porém, não é um acontecimento importante, elas nascem do abandono.

E se tem uma palavra que melhor resumiria o estado da nossa atual Biblioteca Municipal Dolor Barreira, essa palavra seria “Abandono”. Abandono esse não causado por seus funcionários, que se esforçam de todas as maneiras para manter pelo menos o básico do funcionamento de uma Biblioteca, ambiente limpo, pessoas bem recebidas. Porém, esse básico ainda é muito pouco.

Estruturalmente, a biblioteca tem dois andares, nos quais somente o andar de baixo é utilizado, a frente está pichada, as tinturas das paredes da frente estão gastas, a placa luminosa com os dizeres informando que ali é uma biblioteca está desbotada e mal acende. Entre dois prédios, a biblioteca é engolida pela escuridão do Benfica e muitas e muitos que por ali passam não sabem que que aquilo ali é a “BIBLIOTECA MUNICIPAL”, ou seja, representação maior do Livro, Leitura, e Literatura da Cidade de Fortaleza.

Não há divisão em todos os setores, de modo que o sistema de ar condicionado, muitas vezes defeituoso, não dá conta da climatização do espaço. A quantidade de mesas e cadeiras são mínimas e em estado degradante.

Não existe divisão entre salas de leituras e acervo, de modo que o consultante não pode se sentir minimamente à vontade para andar pelos acervos, fazendo barulhos ocasionais, ou tirando dúvidas com alguma amiga/amigo que esteja presente, pois tal fato iria incomodar as pessoas que procuram a biblioteca como o refúgio para seus estudos.

O Pátio de eventos, muito bonito e agradável, é usado como sala de leitura, desse modo, qualquer grupo de literatura, fórum de literatura, ou afins, que desejem usar o espaço, acabará também incomodando os frequentadores assíduos da biblioteca que por lá vão para estudar.

O Setor Braile está em total decadência, sem um funcionário para cuidar do acervo, esse setor, como um setor inabitado, serve também como uma sala de estudos.

O acervo está muito defasado, ultrapassado, não existe uma política de renovação constante de acervos e o público sequer pode contar com uma coletânea de periódicos, Jornais e Revistas de principal circulação do Estado e do País.

Falta mais funcionários especializados para apoio aos funcionários que já lá estão, bibliotecários formados e qualificados para cuidar dos acervos e do funcionamento da Biblioteca.

O setor de internet tem computadores desatualizados, com pouca manutenção e internet de baixa qualidade.

O Setor Infantil, alma de qualquer Biblioteca, é morto, mal se vê circulação de crianças e adolescentes.

Caso tivéssemos todos esses problemas supridos, ainda cairíamos em um outro grave problema, falta total de programação, a baixa quantidade de usuários da Dolor Barreira, poderia ser revertida se fosse investido em uma programação constante de contações de histórias, rodas de leituras, encontros com escritores, atividades temáticas prestigiando escritores Fortalezenses e Cearenses, exposições e outros.

O que seria o mínimo, pois, repetimos, essa é nossa “Biblioteca Municipal”, ou seja, o Retrato da Literatura, Livro e Leitura de Fortaleza. Contudo, se formos observar bem, o estado da Dolor Barreira, reflete o estado das políticas públicas do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas, que são completamente inexistentes.

No início da gestão, nos diálogos com as linguagens, a Secretaria de Cultura de Fortaleza fez encaminhamentos práticos para com a Literatura, mas nenhum ainda foi cumprido, eis eles:

ENCAMINHAMENTOS:
- Elaboração do Plano Municipal de Literatura, Livro e Leitura; (iniciou de modo arbitrário só agora);
- Reuniões específicas (encontros temáticos) com as cadeias do segmento: MEDIAÇÃO, CRIAÇÃO, PRODUÇÃO, REGULAMENTAÇÃO;
- Elaborar edital premiando projetos de circulação e publicação; (4 anos sem editais das artes, quiçá um específico para publicação); 
- Apoiar espaços de leitura (edital de apoio às pequenas livrarias como ponto de leitura);
- Promover aproximação com a SME em projeto de formação de leitores;
- Fortalecer o Programa Agentes de Leitura (extinto);
- Aumentar o apoio às Feiras (Não acontece nenhuma, a única que havia, a Feira do livro e da rosa, não existe mais, só há um pouco de apoio à Feira do livro infantil)

O fato triste é que não tínhamos políticas para nossa linguagem, só pequenas ações isoladas, agora nem mais essas pequenas ações isoladas temos, é preocupante o estado de Abandono não só de todo Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas de Fortaleza - é muito preocupante o estágio em que se encontra aquela que é a nossa BIBLIOTECA MUNICIPAL.

Talles Azigon
Poeta, Produtor Cultural, Contador de Histórias, Mediador de Leituras e Editor.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Dripped - você seleciona bem a arte que consome?



Através do twitter MEiA6 [e aqui vai a nossa primeira dica], conheci a animação Dripped, do diretor Léo Verrier. Além de uma homenagem a Jackson Pollock, o curta traz uma discussão: quanto de arte há em ti? Quanto a arte que recebemos, e procuramos, formam parte do que somos? Você é a arte que você come?

Há no filme também um processo de criação bem interessante, destacando a prática como aprimoramento.

Bom filme.

 

segunda-feira, 11 de maio de 2015

A última crônica - Fernando Sabino

 Coluna Textos Curingas


Uma das maiores crônicas da literatura brasileira.



A última crônica
Fernando Sabino

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.

O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.